Por José de Alencar (1875)
O primeiro impulso do capitão-mór foi recusar o convite. Com a idéia que êle fazia de sua importância e da posição que tinha naquele sertão sujeito à sua vontade onipotente, aceitando favores de outrem.
A generosidade era um direito seu; êle a dispensava quando lhe aprouvesse, mas não a recebia. Como os antigos reis, êsse potentado não reconhecia igual dentro de seus domínios; todos os moradores, pobres ou ricos, de Quixeramobim, êle os considerava como seus vassalos.
Com muito jeito conseguiu D. Genoveva persuadir o marido da conveniência de fazer uma exceção daquela vez, a fim de que ela e sua filha melhor conhecessem o Marcos Fragoso, antes de ajustar-se o casamento. Campelo consentiu afinal; mas recomendou à mulher que observasse bem os aprestos do convívio, a fim de excedê-los em um festim para o qual se propunha a convidar o vizinho e seus hóspedes.
Do outro lado da várzea, ao entrar no tabuleiro, havia à borda do caminho um casebre de embôço coberto de palha. Ao avistar essa habitação isolada, o capitão-mór que investigava com olhar de dono os lugares por onde ia passando, observou-se atento.
— Agrela! disse estacando o ruço e apontando para o teto da casa.
O ajudante seguindo a direção indicada aproximou-se da cabana e examinou o tôpo da carnaúba que servia de cumieira:
— Cortada de fresco? perguntou Campelo.
— Não há uma semana; respondeu o ajudante.
— Traga já o atrevido à nossa presença, Agrela.
O ajudante imediatamente deu ordem à gente da escolta, e foi descobrir o dono do casebre numa rocinha de mandioca, a poucas braças de distância. O homem vinha assustado.
— Como te chamas? perguntou o fazendeiro.
— José Venâncio, para respeitar e servir ao sr. capitão-mór.
— José Venâncio, quem te deu licença de cortar aquela carnaúba?
— Saberá o sr. capitão-mór que eu não corte nas terras de Oiticica, mas lá na várzea do Milhar.
— A ordem que demos, José Venâncio, é de não cortar carnaúba, em qualquer parte dêste sertão.
— Eu não sabia, sr. capitão-mór; pois não seria capaz de desobedecer a vossa senhoria. Era preciso que estivesse doido.
— Acha que êle não sabia, Agrela? perguntou o Campelo a seu ajudante.
— O José Venâncio veio morar para estas bandas há pouco tempo e tem-se portado bem. Entendeu mal a ordem; mas não obrou com malícia.
— Por esta vez, e atendendo à informação do nosso ajudante, ficas perdoado; mas não caias noutra, José Venâncio.
— Juro, sr. capitão-mór!
— A carnaúba é um presente do céu: é ela que na sêca dá sombra ao gado, e conserva a frescura da terra. Quem corta uma carnaúba ofende Deus, Nosso Senhor; e nós não podemos deixar sem castigo tão feio pecado. Vai em paz, José Venâncio.
O matuto curvou de leve o joelho, fazendo submissa reverência ao capitão-mór, que prosseguiu no meio de sua comitiva.
Durante essa curta demora ocorreu um incidente no grupo das senhoras. D. Flor que havia parado perto de uma touceira de carnaúba, descobriu a umbela de uma trepadeira, aberta naquele instante e aproximou-se para colhê-la; mas não pode alcançar o pâmpano que ficava muito alto e entrelaçado com os talos da palmeira.
— Ajuda-me, Alina!
— Você vai ferir-se, Flor! exclamou a companheira.
— Medrosa! tornou a donzela, cedendo de seu intento.
A orvalhada da noite, de que estavam cobertas as fôlhas, a tinha borrifado. Ficara encantadora assim, com os cabelos salpicados de aljôfares. De longe ainda lançou à flor os olhos cobiçosos, e insensivelmente volveu-os na direção de Arnaldo, com insistência.
O sertanejo, que de parte acompanhava os movimentos de Flor, surpreendido por seu olhar, ergueu a cabeça com um gesto de revolta. A donzela voltou-se com uma dignidade fria e desdenhosa para um homem da escolta.
— Apanhe aquela flor, Xavier.
Antes que os outros ouvissem a ordem já Arnaldo arremessara o cavalo à touça de carnaúbas, e colhia a flor que veio apresentar à donzela.
— Obrigada! disse-lhe ela, e deu a flor a Alina.
A posição de Arnaldo na fazenda tinha-se modificado de certo modo desde a tarde do aparecimento da Bonina, quinze dias antes. É isso que explicava sua presença alí, naquele momento, reunido à comitiva.
O capitão-mór no dia seguinte o tinha declarado vaqueiro geral de suas fazendas; e todos o consideravam como tal, e o tratavam nessa conformidade, exceto êle próprio, que fazia suas reservas.
O rasgo do fazendeiro naquela tarde, se a todos admirou, a êle o comovera profundamente.
Depois de sua desobediência, só uma graça especial podia mover o ânimo do capitão-mór em seu favor.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.