Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Cortou o galho de uma árvore, que pela sua propriedade, os colonizadores chamaram candeia; tirou o fogo, e começou a descer com o facho aceso. Foi só nessa ocasião que Cecília embebida nos seus pensamentos, viu defronte de sua janela o índio a descer pela encosta. 

A menina assustou-se; porque a presença de Peri lembrou-lhe de repente o que se passara pela manhã; era mais uma afeição perdida. 

Dois laços quebrados ao mesmo tempo, dois hábitos rompidos um sobre o outro, era muito; duas lágrimas correram pelas suas faces, como se cada uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavam de ser vibradas. 

— Peri! 

O índio levantou os olhos para ela. 

— Tu choras, senhora? disse ele estremecendo. 

A menina sorriu-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma. 

— Não chora, senhora, disse o índio suplicante; Peri vai te dar o que desejas. 

— O que eu desejo? 

— Sim; Peri sabe. 

A moça abanou a cabeça. 

— Está ali; e apontou para o fundo do precipício. 

— Quem te disse? perguntou a menina admirada. 

— Os olhos de Peri. 

— Tu viste? 

— Sim. 

O índio continuou a descer. 

— Que vais fazer? exclamou Cecília assustada. 

— Buscar o que é teu. 

— Meu!... murmurou melancolicamente. 

— Ele te deu.

— Ele quem?

— Álvaro. 

A moça corou; mas o susto reprimiu o pejo; abaixando os olhos sobre o precipício, tinha visto um réptil deslizando pela folhagem e ouvido o murmúrio confuso e sinistro que vinha do fundo do abismo. 

— Peri, disse empalidecendo, não desças; volta! 

— Não; Peri não volta sem trazer o que te fez chorar. 

— Mas tu vais morrer! 

— Não tem medo. 

— Peri, disse Cecília com severidade, tua senhora manda que não desças. 

O índio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para ele; cumpria-se irremissivelmente. 

Fitou na moça um olhar tímido; nesse momento Cecília, vendo Álvaro na ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro da janela corando. 

O índio sorriu. 

— Peri desobedecer à tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração. E o índio desapareceu sob as trepadeiras que cobriam o precipício. Cecília soltou um grito, e debruçou-se no parapeito à janela. 


VIII 

O BRACELETE 

 

O que Cecília viu, debruçando-se à janela, gelou-a de espanto e horror. 

De todos os lados surgiam répteis enormes que, fugindo pelos alcantis, lançavam-se na floresta; as víboras escapavam das fendas dos rochedos, e aranhas venenosas suspendiam-se aos ramos das árvores pelos fios da teia. 

No meio do concerto horrível que formava o sibilar das cobras e o estrídulo dos grilos, ouvia-se o canto monótono e tristonho da cauã no fundo do abismo. 

O índio tinha desaparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho. 

Cecília, pálida e trêmula julgava impossível que Peri não estivesse morto e já quase devorado por esses monstros de mil formas; chorava o seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para salvá-lo. 

Às vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrível que se desenrolava diante dela, e abria-os logo para perscrutar o abismo e descobrir o índio 

Em um desses momentos um dos insetos que pululavam no meio da folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu ombro; era uma esperança, um desses lindos coleópteros verdes que a poesia popular chama lavandeira-de-deus. 

A alma nos momentos supremos de aflição suspende-se ao fio o mais tênue da esperança; Cecília sorriu-se entre as lágrimas, tomou a lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a. 

Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde preferir uma palavra ainda com a voz trêmula e fraca: 

— Peri! 

No curto instante que sucedeu a este chamado, sofreu uma ansiedade cruel; se o índio não respondesse, estava morto; mas Peri falou: 

— Espera, senhora! 

Entretanto, apesar da alegria que lhe causaram estas palavras, pareceu à menina que eram pronunciadas por um homem que sofria: a voz chegou-lhe ao ouvido surda e rouca. 

— Estás ferido? perguntou inquieta. 

Não houve resposta; um grito agudo partiu do fundo do abismo, e ecoou pelas fráguas; depois a cauã cantou de novo, e uma cascavel silvando bravia passou seguida por uma ninhada de filhos. 

Cecília vacilou; soltando um gemido plangente caiu desmaiada de encontro à almofada da janela. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5354555657...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →