Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– No fim dessa hora estarei vingado.
– Perdão!... murmurou a viúva ajuntando as mãos como se quisesse orar.
– Pois então... senhora, hoje mesmo, e antes que termine o sarau, esse mancebo deverá ter para sempre deixado esta casa.
E abandonando Mariana, que foi cair quase desmaiada sobre uma cadeira, Salustiano voltou à sala.
CAPÍTULO XIX
UM PAI QUE CHORA
FAZIA um calor abrasante; apesar dele, porém, as moças e moços continuavam a dançar.
Cândido deixou a sala, e dirigiu-se ao jardim. Queria ver aquele lugar feliz,
onde pela primeira vez vira Celina; era o teatro de seu primeiro e único amor, devia ser-lhe grato.
Entrou como possuído de um santo respeito, devorou com os olhos todas aquelas inocentes flores, todos os dias regadas ao amanhecer por um ente tão belo e tão puro como elas mesmas; dirigiu-se depois ao caramanchão; mas força lhe foi parar diante dele.
Um velho com a cabeça coberta de cabelos brancos, ali estava sentado com o rosto caído entre as mãos, e chorando como um menino.
Era Anacleto.
Portanto, naquela festa estava a história do mundo. Estava o prazer de mistura com a dor, o riso de envolta com o pranto, e a felicidade com o infortúnio.
Na sala uma música alegre, viva e estrepitosa animava os moços; e no jardim um mísero velho desabridamente soluçava.
Cândido em pé, diante de Anacleto, não podia compreender uma tristeza tão grande em uma noite de festa, nem adivinhava o que lhe cumpria fazer naquele caso
Anacleto, ocupado só com a sua dor, não tinha sentido aproximar-se o mancebo, e chorava, e soluçava sempre.
O que queriam dizer aquelas lágrimas do velho, que ainda há pouco se mostrara na sala tão feliz?... tão contente?... que contradição de sentimentos era essa?...
Era o segredo de um coração de pai.
Há na vida do homem um grande amor, cuja benéfica influência se experimenta ainda nos mais apertados lances. Um amor imenso, que, por assim dizer, enche toda a alma que o dá; amor único, sem interesse, porque às vezes é mesmo a um ingrato, que arranca lágrimas, a quem se ama: é o amor que um pai e uma mãe dão a seus filhos.
Porém nesse terníssimo afeto, pode-se talvez fazer uma distinção: um pai ama muito com o coração, mas ama também com a cabeça; uma mãe ama quase sempre só com o coração.
A grande missão da mulher é a maternidade; e, desde que é mãe, a mulher tem Deus no céu, e seu filho no mundo.
Uma mãe, em regra geral, sabe amar muito, e só cura de seu amor; vive de beijar, de contemplar seu filho; ela quase que o acredita um ente especial, que todos devem bem-querer, e ao qual nunca poderá tocar a mão pesada do infortúnio. Extremosa, complacente, fecha os olhos aos erros de seu filho, não ouve aqueles que notam em suas faltas; e se seu filho é um desgraçado, ela é desgraçada com ele. E se seu filho é um criminoso, ela o adora no seio do crime, despreza o juízo do mundo; e que lhe importa o mundo!... Deus está no céu, e é grande para perdoá-lo; e na terra está ela, que é grande para amá-lo sempre.
Um pai não é tanto assim; olha também para o mundo em que vive; respeita seus prejuízos e quer preparar seu filho para esse mundo, no qual tem de passar a vida. A opinião dos homens significa muito para ele, e portanto dobra-se a ela. Quando seu filho começa a representar um papel na sociedade, o pai segue-o constantemente com os olhos, anima-o com suas exortações, corrige-o com suas admoestações, dirige-o com seus conselhos, e enfim coroa-se também com os seus triunfos, e humilha-se com suas derrotas, O desvario de seu filho o enlouquece; a mancha, que vem nodoá-lo, cai-lhe no coração; é com ele solidário na glória e na vergonha.
Por seu filho tem um pai os olhos no mundo, e uma mãe os olhos no céu.
E coisa notável!... a natureza inspira sentimentos que quase chegam a parecerse com a ingratidão.
Um filho que deve tanto a seus pais; que antes de nascer causou já tantas dores, tantos tormentos a sua mãe, que depois de nascer bebe o leite de seus peitos; um filho, por cuja causa perderam seus pais tão longas noites, choraram lágrimas tão amargosas; um filho, ao pé do qual velam sempre por ele dois anjos, como duas Vestais pelo fogo sagrado; que tem sido o objeto de tão grande amor, de tão extremosos cuidados; um filho tem na sua vida uma hora que lhe é marcada pela natureza; que é hora da natureza sim, mas que é hora também de ingratidão.
Se esse filho é um homem, encontra cedo ou tarde uma mulher; e se é mulher, aparece-lhe um homem, pelo qual são deixados pai e mãe!... basta às vezes o olhar de um mancebo elegante, para plantar-lhe no coração um sentimento que vai depois na balança pesar mais que todos esses amores, que todos esses cuidados de vinte anos e de mais anos ainda!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.