Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Otávio, não podendo resistir à força dos encantos de Honorina, amou-a mais do que todos os seus competidores; amou-a ardente e loucamente; amou-a como nunca dantes tinha amado.
Lucrécia, a antiga dama dos pensamentos de Otávio, Lucrécia, hábil e perspicaz, compreendeu desde logo que seu amante faltava aos juramentos tantas vezes repetidos, que a traía enfim!
E Honorina era a causa, embora involuntária, desta traição!
Exasperada porque via acima de sua vaidade a cabeça angélica de uma moça encantadora; exasperada porque amava sempre e muito a Otávio, Lucrécia queria vingar-se; mas em todos os projetos de vingança, o meio... e a vítima era somente Honorina.
Desde o instante da cruel convicção de sua derrota, Lucrécia determinou colocar-se entre o perjuro e a rival; sabendo que Otávio, esquecido do passado e só cuidoso do seu recente afeto, se aproveitara do antigo conhecimento, que o podia aproximar de Hugo de Mendonça, o procurara e cercara de obséquios, e finalmente chegara até junto de Honorina, não hesitou: fez alugar uma casa em Niterói, e não longe da da sua rival correu a oferecer-lhe a sua amizade, eternizou nos lábios o seu belo sorrir, que tão bem condizia com a doçura de seus lindos olhos azuis; e, recebida com prazer pela incauta jovem, ela ficou lá pronta para opor-se como uma barreira ao homem que a tinha ofendido, e, a ser preciso, para sacrificar a beleza e inocência de Honorina nos altares da sua vaidade.
Otávio e Lucrécia personificavam os sentimentos que por Honorina nutriam os homens e senhoras.
Uma única diferença havia.
Otávio era o mais apaixonado e ardente dos pretendentes que Honorina tinha, contra a sua vontade, trazido do sarau.
Lucrécia a menos nobre de todas as senhoras, isto é, nenhuma das rivais de Honorina desceria até ao ponto a que é capaz de descer a viúva.
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Duas semanas são passadas depois do sarau de Tomásia.
São nove horas da noite. Brás-mimoso e Félix acham-se em casa de Venâncio; a conversação tinha naturalmente caído sobre Honorina.
— Nós já a vimos com mais vagar, disse Tomásia; há três dias que veio com seu pai cumprimentar-nos... ao menos política sabem eles...
— Política sabem eles, repetiu Venâncio.
— Quanto ao mais, outra vez digo, não é lá essas coisas, disse Rosa.
— Deixa-te disso, mana, acudiu Manduca... foi a moça mais bonita que cá veio...
— Ora... vocês todos são assim; se amanhã chegar alguma outra mocinha... adeus, Sr.ª D.
Honorina!...
— Não eu, que me acho apaixonado até aos olhos! exclamou Brás-mimoso.
— Também o Sr. Brás?... muito bem: falta um para duas dúzias; primo Félix talvez queira inteirar a conta.
— Não, prima Rosa, se eu quisesse amá-la não precisava de conselhos... mas confesso que, achando D. Honorina bonita, não sinto, contudo, grande abalo por ela.
— Quem sabe, meu primo, talvez que você quando levantasse os olhos para olhá-la não a visse por estar alta demais...
— Pode ser, prima; mas falando assim, você faz de antemão muito baixa idéia de outra mulher.
— Como?...
— Porque deve acreditar baixa demais a mulher a quem eu ousar oferecer o meu amor. O rosto de Rosa se tornou da cor do seu nome; pois que acabava de ser cruelmente ferida com suas próprias armas.
— Lá pela conta dos vinte e quatro não haja arrufos, disse Brás-mimoso, eu posso apresentar um nome que talvez não esteja na relação.
— Vamos a ele, disse Tomásia.
— O Sr. Otávio.
— Otávio! exclamou dando uma risada Tomásia; Sr. Brás, asseguro-lhe que está muito atrasado.
— Está muito atrasado, Sr. Brás! repetiu Venâncio rindo-se também com sua mulher.
— Mas explique-se Sr.ª D. Tomásia.
— Pois não sabe que ele é homem sobre quem não pode calcular nenhuma moça solteira?...
— Por quê?...
— Porque é parcela votada no orçamento da comadre Lucrécia.
— Está muito atrasada, Sr.ª D. Tomásia!... exclamou Brás-mimoso, dando por sua vez uma risada.
— Então que há de novo?... conte-nos.
— Estão de arrufos!... — Quem, Sr. Brás?...
— Otávio e sua comadre...
— É possível?!...
— Por causa da mesma feiticeira que nos encantou a todos...
Ora, feiticeira!... feiticeira!... murmurou Rosa, no meio de uma conversa séria, sai-se com aquilo.
— Mas como pode ser isso, Sr. Brás, se a comadre Lucrécia está agora dia e noite na casa de Honorina e parece ser a sua melhor amiga?... em menos de oito dias de conhecimento travaram uma amizade que parece de anos.
— Lá esses segredos só as senhoras poderão explicar; quem é que até hoje compreendeu um coração de mulher?...
— Mas duas rivais darem-se assim...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.