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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Se tiveram alguma vez notícia de existir no Porto um brasileiro de Barrosas, de quem me não lembra o nome, casado com uma senhora chamada Ângela, que depois enviuvou, e casou segunda vez...

Ângela fez à cunhada um sinal negativo.

― Nada, não conhecemos, nem ouvimos falar...

― Logo vi. Vão lá saber em terra tamanha...

― Mas, se se pedissem informações... – lembrou Joana.

― Já as mandei procurar...

― E não soube nada?

― Soube o que disse, minhas senhoras: que Ângela enviuvara, casara segunda vez, e saíra não se sabia para onde.

― Vossa excelência mandou há muito saber? – perguntou Joana.

― Há três meses o meu escudeiro; por lá andou cinco dias.

― E essa senhora... – balbuciou Ângela.

― Seria parenta do senhor conde? – interveio Joana.

― Era uma infeliz, filha dum homem que tinha sido bom, e infortúnios grandes desvairaram e perverteram. Afinal, esse homem, como se tinha sepultado vivo, perdeu nas trevas, onde se abismou, alma, coração, honra e tudo. Deus, que o precipitara, levantou-o um dia, não sei se para lhe acrescentar o suplício, renascendo-lhe o coração e sentimentos de amor a sua filha. Procurou-a então; mas... tarde.

Escutaram-no silenciosas e estupefatas as duas senhoras.

A conversação foi interrompida pela entrada do cirurgião; porém, o conde, azado o ensejo, prosseguiu: ― Sr. Costa, eu quero dever-lhe uma grande fineza!

― Mande-me vossa excelência.

― Estas senhoras já me ouviram com muita paciência e compaixão falar duma filha que tive... Francisco olhou com assombro para ambas.

Simão de Noronha continuou:

― Hei de pedir-lhe que empenhe as suas amizades e relações no Porto para descobrir-se o destino de uma senhora, de nome Ângela, casada que foi com um brasileiro, já falecido, e casada depois com não sei quem. O meu escudeiro, que chega talvez amanhã, pode dizer a vossa senhoria o nome do brasileiro, com o qual a indagação nos levaria a descobrir a paragem de minha filha.

― Prontamente escreverei a pessoas que hão de conseguir o que for possível – disse Francisco, sensivelmente perturbado. – Tenha vossa excelência esperanças; mas que não venham alvorotar-lhe o espírito. Precisamos de toda a sua placidez nervosa, e de completa inação de espírito. Depois que vossa excelência estiver no gozo da sua vista, buscaremos tudo que possa impressioná-lo alegremente. Se sua filha existir, ela será também comigo portadora de luz; eu, a dos olhos; ela, a da alma.

XXIX

LUZ!

Estão prestes o operador e o ajudante.

Ângela, baldado o esforço que empregou para assistir, afastou-se, pálida e tremula, para o seu oratório. Joana e Vitorina assistiam para coadjuvar o operador.

O conde treme.

― General! – disse Francisco Costa. – Quem se enrostou com os esquadrões de cavalaria de Chaves imperturbável, não desmaia diante duma lâminazinha de aço.

― Tremo de medo; mas não é medo do golpe. Se depois de me rasgar as névoas, doutor, eu não vejo mais que trevas!...

Será ver o que ninguém viu, senhor conde. Ver trevas, é vista dupla, que eu não prometo dar a vossa excelência. Basta que veja a luz – replicou jocosamente o operador. – Não obstante, eu encontrei essa imagem em Milton, que tinha a autoridade de cego.

O operador escolheu o método da extração.

Atravessada com o queratótomo a córnea transparente, o humor cristalino, cuja opacidade impedia a impressão de raios visuais, depois de comprimido o globo brandamente, destacou-se, e saiu no gancho de Wenzel.

Terminada a operação, o conde viu a mão do operador, tomou-a nas suas e beijou-a.

― Vi! Meu Deus! Vejo o seu rosto, Sr. Costa – exclamou Simão de Noronha. – Aqui estão duas senhoras, não estão?...

― É minha irmã e Vitorina.

― E sua senhora?

― Está preparando compressas.

― Eu queria vê-la...

― Noutra ocasião. Vamos já colocar os apósitos.

― Já?! Mais quantos dias cego!

― Quarenta e oito horas em que vossa excelência, pensando nos cegos irremediáveis, cuidará que as horas são instantes.

Conduzido para o leito o operado, em quarto quase de todo escuro, assentaram-lhe chumaços molhados sobre os olhos cingidos de ligaduras.

Terminado o curativo, Ângela voltou, apertou a mão do pai, e disse estremecidamente:

― Parabéns para vossa excelência e para nós, senhor conde!

― Não tive a fortuna de vê-la, Sr.ª D. Maria!... – queixou-se o velho.

― Estava lá dentro...

― E não esteve aqui enquanto me operaram? Não a senti...

― Estava pedindo a Deus por vossa excelência.

― É um anjo, minha querida senhora! Esta casa... toda ela é um santuário... Olhe que vi seu marido. Já o conheço. Tem um belo aspecto! É trigueiro e muito barbado, não é?

― É, sim, senhor conde.

― Sua cunhada não a divisei bem; mas pareceu-me banca e magra, não é?

― É, sem dúvida.

― A criada conheci que era velha; mas estava encoberta pela Sr.ª D. Joana...

(continua...)

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