Por Aluísio Azevedo (1891)
Ao centro havia um esplêndido tapete desdobrado no chão, com uma ceia servida em baixelas de prata e ouro.
Aí três cavalheiros e três damas, ricamente vestidos e negligentemente reclinados em coxins orientais, bebiam e comiam, em boa camaradagem, a rir e conversar, e meio abraçados uns com os outros.
Mais adiante três damas e um cavalheiro, assentados sabre macias e felpudas peles, jogavam as cartas, entre beijos e gargalhadas.
De outro lado, três moços trajados à napolitana e estendidos por terra, fumavam em volta de um grande cachimbo arábico, e bebiam vinho cor de topázio, que uma bela rapariga de colo nu lhes derramava nos copos de ouro.
Sobre o cais que dominava a baía, um casal deitado, de peito para o ar, contemplava a lua, ambos quase adormecidos, com a cabeça pousada nos braços um do outro.
Cantavam a meia voz em tom de barcarola:
Tem a vida mil encantos,
Quando a gente sabe
amar...
Os gozos são tantos,
quantos
Murmúrios há no mar...
Deixa-me a boca
Tua beijar!
A vida é pouca
Para te amar!...
Ângelo parara à entrada com Alzira.
— Que bela cousa é o prazer!... disse um dos cavalheiros que ceavam.
E acrescentou, abraçando preguiçosamente as duas damas que tinha ao seu lado:
— E pensar que há por esse mundo gente que fala em tristezas!... As mulheres, as flores, a música, o jogo, o vinho e os bons manjares, eis o nosso elemento da vida!...
E tomando as mãos da sua vizinha da direita:
— Não é verdade, minha bela, que o prazer é a melhor cousa da vida?...
A dama respondeu-lhe com um beijo, quebrando os olhos voluptuosamente.
— Ganhei! disse outro cavalheiro no grupo dos jogadores. Paga!
— Aqui tens! volveu a dama, oferecendo-lhe os lábios, que ele beijou com delícia.
E ela exclamou logo em seguida:
— Agora ganhei eu!
Ele tirou da cinta um punhado de moedas que lhe atirou ao colo.
E continuaram a jogar.
— Entremos! segredou Alzira, penetrando no recinto do alpendre.
— Que lugar encantador!... considerou Ângelo, que até aí estivera a olhar para todos os lados, deveras surpreendido.
E fazendo a todos um rasgado cumprimento:
— Boa noite, cavalheiros!
— Vivam, rapazes! exclamou Alzira ao mesmo tempo.
Foram correspondidos indolentemente pelos circunstantes.
Só um dos cavalheiros da ceia voltou-se para eles, e disse-lhes em ar amável:
— Boa noite, gentis namorados. Andais gozando a vida, não é verdade?...
— Sim, respondeu Alzira. Temos mocidade e dinheiro: queremos gozar!...
— Sede bem-vindos! volveu aquele; não podereis escolher sítio melhor! Aí tendes o que comer e o que beber... Tomai assento conosco e sereis dos nossos! Bebei e embriagai-vos, caríssimos:
Ângelo e Alzira assentaram-se juntos num coxim, e o cavalheiro prosseguiu, mal podendo abrir os olhos:
— Aqui as horas correm ligeiras e felizes! Escorregam como um bom vinho!...
— Mas quem sois vós?... perguntou Ângelo, levando aos lábios a taça que acabara de encher.
O interrogado explicou logo:
— Somos sectários da religião do prazer: nossa única ambição, nosso único ideal — é gozar! A Sensualidade é o nosso Deus!
— O gozo pelo gozo! Eis aí a nossa divisa! interveio um dos outros cavalheiros que ceavam.
E o terceiro acrescentou, emborcando o copo:
— Não conhecemos outra moral, nem outra filosofia!... O amor antes de tudo!...
— Perdão, objurgou Ângelo, tomando interesse na conversa; isso não e amor, e lascívia...
— Oh! replicou o que recebera a objeção. Nada de sentimentalismo!... Queremos as idéias etéreas vivamos pura e exclusivamente para os sentidos. Nada de amores platônicos ou exclusivistas! Nada de ciúmes e nada de egoísmos! Entre nós, as mulheres, seja qual for, é um instrumento de prazer, de que cada um se serve como melhor gosta e lhe apraz. Aqui, neste feliz recinto, as mulheres não têm dono; são como as flores do caminho: pertencem ao primeiro que se debruça sobre elas para lhes sorver o aroma...
E derreando-se entre as duas mulheres que estavam ao lado dele, passou-lhes o braço na cintura e perguntou-lhes, beijando-as, uma e depois outra:
— Não é verdade, encantadoras amigas, saborosas flores, cujo perfume nos embriaga de prazer? Não é verdade que não guardais egoisticamente, só para um homem, o vinho dos vossos lábios e os tesouros dos vossos corpos adoráveis?...
Uma das mulheres respondeu sorrindo:
— Somos altruístas... Com os encantos que possuímos, poderíamos, por interesse, dar a felicidade a um homem... preferimos dá-la a muitos. É mais generoso...
— Decerto! confirmou o cavalheiro que falara por último. A castidade não passa de uma torpe especulação! ...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.