Por Aluísio Azevedo (1897)
Um dia reparou que Genoveva tinha um pescoço roliço e uns dentes muito sãos. "— Devia ter sido um mulherão no seu tempo!" considerou ele. E o fato é que, desde logo, principiou a notar que a viúva estava bem frescalhona. E, sem querer, demoravamse os dois a olhar mais expressivamente um para o outro.
Chovia muito uma noite, e às onze horas a tormenta recrudesceu de modo atroz.
— Foi o diabo esta chuva! dizia Alfredo, a pensar no seu romantismo.
— Temos aí o assado do jantar e uns camarões frescos, lembrou Genoveva.
E, como a criada se retirava às oito horas, andou ela mesma à cozinha para preparar a ceia; depois, a conversar, a rir, estendeu a toalha, e foi buscar uma garrafa de vinho que guardava reliosamente ainda do seu tempo de casada.
— O defunto tinha ciúmes destas garrafas... observou a viúva, a limpar as teias de aranha de uma delas com o guardanapo. Foi presente que lhe veio da terra... Uma delícia!
Alfredo sentiase bem.
A noite estava fria, a sala fechada, a toalha da mesa era de linho claro e cheirava aos jasmins da gaveta, a fritada de camarões enchia o ar de um aroma quente e picante.
— E a verdade é que tenho bom apetite! confessava Alfredo, a abrir com mil cuidados a velha garrafa do defunto comendador.
— Ora! a gente em companhia sempre é outra cousa! disse Genoveva, expandindo a sua satisfação.
E assentouse, garrida, defronte do conviva.
A chuva continuava lá fora a cair, cada vez mais forte. Alfredo elogiava o vinho, saboreandoo a goles pequeninos e estalados. Genoveva enchialhe o prato.
— Então, já vai à nossa; para que tenhamos muitos dias de boa paz, como o de hoje! disse o viúvo, a erguer o cálice, que cintilava à luz do petróleo.
— A nossa! repetiu Genoveva, bebeu, saculando as bochechas.
O tempo passavase. Alfredo reparou que já era mais de meianoite, e que a chuva ainda não havia cessado.
— O verdadeiro é ficar aqui mesmo por hoje. Seria imprudência arriscarse agora por este tempo.. alvitrou a mãe de Ambrosina, com as faces coradas.
Alfredo lembrou vagamente os vizinhos; sempre havia más línguas, que em tudo achavam pretexto para murmurar!...
— Ora! desdenhou Genoveva. Estou velha!
E mudando de tom:
— Amanhã é domingo, o senhor pode levantarse mais tarde, e ninguém reparará nisso...
Alfredo concordou alegremente. Sentiase reanimar por aquele velho vindo do Porto. Acudiamlhe palavras de bom humor, brilhavamlhe os olhos, o sangue despertavaselhe nos membros martirizados pela vida sedentária; tinha fogo na voz e, todas as vezes que se dirigia à companheira, chamavalhe a atenção, passandolhe os dedos pelo braço carnudo.
Genoveva não reparava que os pés de Alfredo estavam havia meia hora encostados aos dela, e que aquilo que a boa senhora tinha junto ao joelho, não era a perna da mesa, e sim a dele.
A garrafa ficou vazia. A viúva do comendador levantarase para fazer a cama do hóspede na sala de visitas.
Alfredo, fora dos seus hábitos, fumou três charutos, e em pouco se recolhiam ambos, cada um para o seu lado.
Mas a cama do hóspede, apesar de desveladamente, preparada com alvos e sedutores lençóis de linho, amanheceu intacta.
E daí por diante, Alfredo ficou sendo para Genoveva o que Gabriel era já para filha desta.
XXII
TOCAMSE OS EXTREMOS
— Vem sentarte ao meu lado... Estás hoje tão esquiva...
— Ora!
— É a primeira vez depois da morte de teu pai, que te vejo de claro...
— Larguei hoje o luto.
— Mas parece que não estás de bom humor...
— É!
— O que tens?...
— Nada...
Queres passear? ir ao teatro? ao circo? fazer visitas? Onde queres ir? Fala!
— Não quero cousa alguma. Deixame
— Não te mereço esses modos!...
— Não faças caso!
Este diálogo era entre Gabriel e Ambrosina, por uma tarde de fins de novembro, fartos meses depois de unidos. Estavam assentados um defronte do outro. Ela a ver distraidamente um jornal de modas, ele a contemplála enamorado.
Gabriel, depois daquelas palavras, levantouse, fumou um cigarro, e foi apoiarse nas costas da cadeira da amante. Ambrosina continuou a ver os seus figurinos, indiferentemente.
Estava mais desenvolvida e talvez mais bela, toldavalhe, porém, a fisionomia um frio ar de desdém e de tédio.
Gabriel tomoulhe nas mãos a cabeça, e beijoua nos olhos.
— O que tanto te mortifica, minha flor?... perguntou ele.
— Sei cá! Só sei que estou desiludida...
— Mas, desiludida por quê?
— Aborrecida!
— Já sei! Foi a visita de Gaspar que te irritou os nervos...
— Pelo menos, ela contribuiu muito para isso. Não sei por que, aborreceme agora aquele sujeito ...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.