Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

O luar inundava o vasto pátio do sítio, e ia pratear as margens e águas do Capibaribe.

Viração intermitente agitava as folhas das macaibeiras e dendezeiros que se levantavam pela extrema das terras de Felisberto.

Cortava os ares o suave murmúrio das águas casado com o canto monótono dos curiangos, que pulavam pelos caminhos.

Pela madrugada, o Marcolino montou no cavalo castanho, atravessou o rio, e meteu se no vasto deserto, ainda adormecido. Como quase todos os homens rústicos, era caprichoso, e entendia que se não cumprisse a sua palavra solenemente empenhada, ficaria sendo o ludíbrio de todos os que o conheciam. Preferia, a este extremo, morrer de fome e sede no mato, ou comido das onças, coisa em que, para dizermos, pouco cuidava. Todas suas idéias estavam voltadas para um centro único: descobrir o Cabeleira. Era este o seu ponto de honra.

Sabendo que o Cabeleira ordinariamente, quando se ausentava das matas de Santo Antão, aparecia nas de Pau d'Alho, tomou a direção desta povoação.

Pau d'Alho fazia então parte da freguesia de Iguaraçu, da qual foi desmembrada em 1799 para ser elevada a freguesia por proposta do visitador Joaquim Saldanha Marinho, nome que traz hoje com invejável brilho um dos maiores espíritos que conta o Brasil moderno. Passou a vila por alvará de 27 de julho de 1811, e a comarca pela lei provincial de 5 de maio de 1840.

Marcolino subiu pela margem do Capibaribe, e antes do meio dia entrou na povoação que fica em terreno plano à beira deste rio. Nada lhe constou a respeito do Cabeleira.

Demorou-se o tempo estritamente necessário ao descanso do cavalo, e quando o sol quebrou pôs-se novamente a caminho para Goitá, que fica quatro léguas distante de Pau d'Alho, e nesse tempo era um lugarejo de nenhuma importância, pertencente a Santo Antão.

Há loucuras transitórias que por tal modo revolucionam o espírito do homem, que o tornam capaz assim de grandes baixezas, como de virtudes ímpares. Feliz aquele que, sob a influencia de loucuras semelhantes, põe os seus esforços e sacrifícios ao serviço da humanidade ou de uma causa nobre.

Marcolino estava possuído de uma dessas loucuras.

Sem o pensar nem querer, tinha fatalmente arriscado a sua palavra, o seu brio, a sua honra. Estava apaixonado pelo lance, e era inevitavelmente arrastado a seu destino.

Deixando mulher e filhos, em duelo com a necessidade, vinha, como um cruzado, um peregrino, um apóstolo do bem, ou um visionário em busca de um ente que fazia tremer povoações inteiras, que preocupava o governo, que aparecia como fantasma, e desaparecia como uma sombra.

Este ente tinha à sua disposição o mato para o receber, os ecos para o avisarem da aproximação dos que o buscavam, os rios para encherem depois de sua passagem, as grutas para o esconderem, a natureza enfim para o disputar tenazmente aos homens, ao poder público, às leis, à justiça, ao próprio Deus segundo parecia.

A tardinha Marcolino estava no lugarejo. Debalde perguntou, debalde indagou. Não houve quem lhe desse novas do famoso bandido.

Aí pernoitou, mas não dormiu.

Muito cedo meteu-se nas matas.

A cabo de dois dias, consumidos sem resultado, entrou a cair em si. A razão tinha-se libertado da alucinação que a prendera em suas redes de aço. A sua doce luz reapareceram os caminhos que as trevas da paixão tinham encoberto ao olhos da vítima do sonho fatal.

Marcolino caíra em si no meio do deserto, ouvindo o rugir das feras, lutando com a fome.

Desanimado, envergonhado da sua fraqueza, resolveu voltar ao seio da família.

Então a imagem dos filhos e da mulher lhe apareceu na mente. Ele teve saudades da casa e quis partir à mesma hora; mas conhecendo os perigos a que se expunha se o fizesse, aguardou sôfrego a madrugada. Quando os horizontes começaram a desmaiar, e o brilho das estrelas a embranquecer, Marcolino pôs-se a caminho.

Estava inteiramente outro.

A vergonha cobria-lhe o rosto, o medo dominava-lhe o espírito, na consciência doía-lhe o remorso de haver, sem o menor interesse pessoal, desamparado mulher e filhos nas garras da miséria.

O dono da casa onde ele havia pernoitado dois dias antes, ao qual devia, além desta, outras muitas obrigações, dera-lhe uma carta para ser entregue por ele ao senhor do Engenho Novo que de presente faz parte da freguesia de Pau d'Alho, e pertencia naquele tempo a Goiana.

Quando Marcolino chegou a Pau d'Alho, o cavalo estava cansado da viagem, e do mau passar durante ela. Para levar a carta a seu destino, teve o matuto de caminhar a pé. Ele viu nisso uma nova tribulação com que a sorte o punia da sua loucura.

Ao anoitecer, de um alto por onde passava o caminho antes de sair da mata que cercava o engenho pelo lado do sul, viu ele um homem correr gacheiro e cauteloso pelo aceiro afora, e entrar adiante no canavial.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5253545556...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →