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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Assim, do ano de 1742 em diante, chamaram-se essas piedosas donzelas Jacinta de S. José e Francisca de Jesus Maria.

II

Por mais que se esconda no seio profundo do bosque, a baunilha se anuncia ao longe pelo ativo perfume que em torno derrama, e de que as auras que passam voando levam as asas embalsamadas. O retiro a que se acolhe às vezes a virtude, a modéstia com que esta se furta à admiração do mundo, não a ocultam jamais tão completamente que além dos muros de um e dos véus da outra não se faça sentir a sua fragrância celeste.

A casa arruinada da chácara da Bica tinha-se tornado objeto do mais vivo interesse e de veneração para os habitantes da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro: nela se asilavam as duas flores precursoras do Carmelo brasileiro.

A fama das virtudes das duas exemplares donzelas, e especialmente a reputação de santidade que sem o pensar havia adquirido Jacinta de S. José, transformaram aquele velho e humilde teto em um recolhimento prestigioso, santificado pelas orações e aplaudido pelos anjos.

Ninguém via as duas religiosas, à exceção do padre José Gonçalves e do confessor que as dirigia; ouviam-se, porém, as suas vozes, entoando cantos e rezando o ofício de Nossa Senhora.

Depois de terminadas algumas obras indispensáveis para tornar verdadeiramente habitável a casa arruinada, Jacinta determinou fazer levantar ali mesmo uma capela consagrada ao Menino Deus. Sentia que lhe faltavam recursos para realizar um tal empenho. Contando, porém, com o auxílio da Providência, vendeu algumas jóias que possuía e com o produto delas ousou encetar a construção da capela.

Era então governador do Rio de Janeiro Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela; e sabendo ele do que se passava, e vindo no conhecimento de que o bispo d. frei João da Cruz tinha dado autorização para aquela pia e modesta obra, quis também ter nela a sua parte e concedeu uma subvenção mensal, que junta às esmolas dos fiéis, facilitaram a Jacinta de S. José e a Francisca de Jesus Maria os meios de executarem o seu pensamento.

Os trabalhos progrediam com uma atividade infatigável. Os operários aproveitavam todas as horas do dia, e à noite, ao clarão do luar, os curiosos viam os vultos brancos de duas mulheres silenciosas que sobre seus ombros carregavam pesadas pedras para junto das paredes que se levantavam. Eram elas as duas irmãs que esqueciam o descanso, e o sono, e a delicadeza do seu sexo, levadas pelo desejo ardente de verem mais depressa acabada a sua capela.

Em 1743, no dia de S. Silvestre, o cônego doutoral Henrique

Moreira de Carvalho, com autorização do bispo, benzeu a nova capela, e no dia da Circuncisão do Senhor, do ano de 1744, as duas irmãs vestidas de capas e saias pardas, e com um véu preto na cabeça, receberam ali o pão dos fortes.

Do lado do Evangelho, sobre o presbitério da capela, Jacinta fizera colocar um postiguinho com o seu raio de folha, e ainda um pano que impedia a vista, para servir de confessionário.

Esta capela subsiste ainda hoje, e encontrá-la-eis na rua de Matacavalos, entre as do Lavradio e dos Inválidos. Se quiserdes visitá-la, entrareis por um simples portão em um pátio de triste aspecto. No fim do portão achareis uma varanda que não menos triste vos parecerá. Da varanda passareis à capela de limitadíssimas proporções. Vereis sobre o presbitério dois velhos postigos; sobre o altar a imagem santa do Menino Deus; para trás do altar, e do lado do Evangelho uma portinha baixa e estreita que se abre para a sacristia pequenina e acanhada, como o corredor de uma casa humilde.

Não gastareis na vossa visita mais de dez minutos, e voltareis desagradavelmente impressionados pela pobreza ou quase miséria em que se deixa a capela do Menino Deus, e pela ruína que a ameaça e que nos ameaça de perder nela, além de um puro e sagrado seio de orações, um teto histórico e recomendável por suavíssimas recordações, e por um passado cheio de mística poesia.

No Brasil ainda não começou a demonstrar-se verdadeiro empenho em conservar igrejas, capelas, simples casas ou simples objetos que se recomendem por algumas recordações históricas. Destruímos esses tesouros do passado sem dó nem piedade, e quando os não destruímos, deixamos que o tempo os destrua sem nos lembrarmos de que há uma espécie de indiferença que um pouco se aproxima do vandalismo.

A capela do Menino Deus parece condenada por essa fatal indiferença, e nem lhe vale o sentimento religioso, que a devia defender.

Praza ao céu que estas minhas palavras consigam despertar o zelo que dorme, e fazer com que apareçam alguns católicos dedicados que auxiliam os últimos devotos que ainda não abandonaram aquele humilde, mas sagrado teto.

(continua...)

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