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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Estremeceu Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra o pai de Linda. 

- Obrigada, Jão! Disse Berta com efusão sincera. 

  Nem lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, dádiva de um assassino, que lhe cedia uma existência como um artigo de seu bárbaro tráfico. 

- Mecê está contente? Perguntou animando-se o capanga. 

- Muito, muito, Jão! 

- Então... me deixe... 

 A voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lábios trêmulos e lívidos. 

- O que é? insistiu Berta. Fale, não tenha susto. Quer que eu faça alguma coisa por você? 

- Sim! 

- Pois diga. 

  Com um violento esforço arrancou o capanga estas palavras trôpegas: 

- Beijar o bentinho. 

  Sorriu-se Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicário pendente com a cruz do cordão de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos pés, o deu a beijar, preso como estava ao pescoço. 

  Jão Fera roçou os lábios pela relíquia, e, sem força para erguer a cabeça bamba, com o corpo balordo e o passo trôpego, cambaleando como um ébrio, afastou-se da menina, sem ânimo de por os olhos no semblante dela. 

- Está embriagado! pensou Berta com indignação que se pintou em sua fisionomia. 

  Mas já a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro assomo de severidade se afogava nos eflúvios de uma compaixão inexaurível. 

- Coitado! murmurou. 

  A blateração do Brás a surpreendeu nesse instante. Voltava com a roupa em frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mão escoriadas, os cabelos emaranhados de gravetos, e todo ele coberto de pó ou lama. Trouxera presa uma cotia, que fora caçar para Berta, em troca da outra. 

  Quando a ia entregar à menina, vendo a repulsão que se desenhava no lindo semblante, e adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeição, apontando para o vulto de Jão Fera. 

- Hanh! hanh!... 

Tinha o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor, e com um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo. 

 

XXX 

Trama 

 

  Era véspera de São João. 

  Na fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a festa daquela noite de folguedos. Já o pátio estava enramado de coqueiros; e no centro erguiase uma pilha de lenha para a fogueira fatídica. 

  Nhá Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multidão de caçarolas, frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda comadre repimpava-se no cepo do pilão, para distribuir suas ordens pelas raparigas; mas não se podia ter que não saltasse logo do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a parte, com uma azáfama crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte ao Faustino: 

  - Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro. 

 D. Ermelinda abdicara naquele dia em nhá Tudinha o governo da cozinha e despensa para ocupar-se exclusivamente com a recepção dos hóspedes que eram esperados à tarde. 

  Depois do almoço, Linda e Berta com os braços entrelaçados pelas cinturas, desceram ao terreiro por uma das escadas laterais e depois de percorrerem as ruas de coqueiros e o pavilhão de folhagem que tinham arranjado ao redor da fogueira, foram abrigar-se do sol na horta à sombra de uma latada, onde podiam conversar à vontade. 

Linda parecia triste. A próxima festa, longe de enflorar, lhe desfolhava o brando e mavioso sorriso. Como o dourado inseto que se esconde entre as pétalas da rosa, havia um segredo a suspirar nesses lábios mimosos. 

- Esta noite as moças ficam sempre tão contentes! disse a menina em tom suave de queixume. 

- E você? tornou Berta com um sorriso. 

(continua...)

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