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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Trazia habitualmente uma grande sobrecasaca de pano azul-ferrete, que era menos uma peça de vestuário, do que um agregado de bolsos. Tinha quatro: dois nas abas e dois no peito, mas de tais dimensões que se tocavam, acolchoando todo o forro, com o chumaço de papéis, lenços, carteiras, fósforos e mil outros objetos de que andava sempre munido, para ter o sumo de prazer de obsequiar. 

Usava chapéu de copa baixa e abas largas. Esse traste característico tinha pregado por dentro uma folhinha-cartão, um horário da estrada de ferro, o mapa da partida dos correios, e os sinais de incêndio; tudo isto por baixo do forro volante de tafetá. 

Ninguém o via, de dia ou à noite, a pé ou de carro, sem o enorme chapéu de sol verde-gaio a que dera Guida o próprio nome de barraca. A esse traste precioso, devia ele o inefável prazer de preservar os aldores de canícula, ou da chuva repentina, o seu velho amigo senador C. quando atravessava o campo, e o outro seu velho amigo o desembargador D. ao sair da relação. 

Se ao sair ameaçava chuva, ou os calos lha tinham anunciado à noite, munia-se por precaução de um par de galochas de borracha, que sumia na profundeza de um dos quatro bolsos insondáveis. Achava-se sempre modos de aparecer a propósito para resguardar da lama os pés de alguns personagens desprecatados. 

A essa previsão deveu ele a preciosa amizade do monsenhor E. Vendo-o um dia entrar no bonde com sapato fino e meia carmesim, acompanhou-o até Botafogo, e aí teve a satisfação de encaixar-lhe o par de galochas, com que a excelência patinhou no mingau do macadame, sem mácula das insígnias prelatícias. 

Outros objetos constituíam o indispensável do Sr. Benício e sem os quais não saía de casa: eram os jornais do dia, uma provisão de lenços brancos e de rapé, um papel de palitos, caixas de fósforos, e um estojo de viagem no qual havia tesoura, canivete, alfinetes, preparos de costura, e até dois frasquinhos, um com arnica e outro com éter. Perdemos de vista nestes últimos tempos ao digno St. Benício; mas apostamos que ele introduziu no seu necessário mais um frasquinho para a “hesperidina”. 

Assim armado de ponto em branco, lançava-se o nosso homem na labutação do costume; por onde ele passava, não perdia ocasião de obsequiar: era médico, modista, agente, recadista, alfaiate, folhinha, gazeta, almanaque, guardaroupa, estojo, paliteiro e tudo enfim que fosse preciso, contanto que desse largas a seu gênio serviçal. 

Entre duas e três horas, Benício era infalível na rua do Ouvidor. Se a família de seu íntimo amigo 

O general F. queria avisar a este do lugar onde o estava esperando; se o seu ilustre amigo o conde G. ao chegar ao largo de São Francisco de Paula não encontrava o carro e precisava que o fossem chamar;  se a sua respeitabilíssima amiga a baronesa H., que andava às voltas com encomendas, procurava alguma casa de pechincha; se finalmente o seu bom amigo o camarista I., ou o almirante K., ou o marquês L. queriam perder-se em certas ruas abstrusas e enganar-se de porta: aí estava rente o incomparável Benício; era ele o homem da situação. 

Em um ápice dava ele com o general em certa barraca de campanha, que este gostava de contemplar, lá para as bandas do Mercado, efeitos da nostalgia guerreira; farejava o lacaio do conde na barraca do largo da Sé onde o brejeiro jogava o pacau por conta do senhor; conduzia a matrona a uma casa misteriosa, onde ia todo o mundo grande, mas ninguém confessava; e por último tais voltas dava com o camarista, o almirante e o marquês, que eles perdiam-se por detrás de umas rótulas... 

O Benício tinha não só um, como diversos abecedários de amigos; mas entre esses escolhia uma dúzia, que eram os do peito. Havia neste último número suas disponibilidades necessárias, como outrora no conselho de estado. Assim era de rigor que aí estivesse o presidente do conselho certo e o provável, para o que ninguém tinha melhor faro do que o nosso amanuense; e isso provinha da sua privança com um particular de São Cristóvão, o filho, senão o mesmo, que tivera certa contestação com o Dr. França, o velho. Destas anedotas, já não se fazem hoje em dia. 

Para estes amigos do peito era o Sr. Benício o Petrus in cunctis, o pau para toda a obra. Por isso lhe pagava o estado um conto e seiscentos como amanuense. 

Tal era pelo menos  a convicção em que estava o nosso homem. 

Incorporando-se ao passeio, não tivera o Sr. Benício outro fim senão dar pasto ao gênio serviçal. A princípio a fogosa mula baia o impedira de aproveitar as ocasiões; mas para a volta tivera o cuidado de passar os arreios para o machinho cargueiro. 

 

XIX 

 

Com a arrancada do machinho, bem a contragosto do Benício, ficaram outra vez sós os dois moços.  Mas a poucos passos de distância cruza a volta que desce para o vale. 

(continua...)

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