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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Cândido ergueu a cabeça e cantou... o rosto do mancebo estava muito pálido, sua voz trêmula, comovida, mas era uma dessas vozes de tenor, que, sonora e penetrante, chegava ao coração dos que ouviam. Ele cantava, pois:

Iguais são no fado, que têm a cumprir,

Iguais num mistério a bela e a flor;

Se a flor tem perfume, que o prado embalsama, É délio perfume da bela o amor.

E a flor mais formosa, se não tem aromas, No vale esquecida desabre e fenece; E a virgem mais bela arrasta seus anos

Tristonha, isolada, se amor não conhece.

Iguais são no fado a bela e a flor,

Iguais no mistério, que vem revelar; A flor deve os campos de aromas encher, E a bela na vida amor cultivar.

E à rosa, que se abre fragrante, viçosa, Em gruta profunda de vale escondido, Por mais perfumada que seja, e se ostente, Que serve o perfume na gruta perdido?...

E à virgem formosa, que o anjo dos risos,

Para encanto do mundo, ao mundo mandou;

Que serve o amor, se um ente obscuro,

Que o não merecia, foi quem ela amou?...

Faceiro favônio, que as flores namora, Na gruta profunda a rosa festeja; Depois pelos prados, de volta, voando, Da rosa os perfumes no prado lenteja.

E o jovem poeta, que em fogo se abrasa,

Se da bela virgem amor mereceu, Nos hinos sagrados, que manda ao futuro, Eterna os encantos do amor, que valeu.

Iguais são no fado, que tem a cumprir, Iguais num mistério a bela e a flor; A flor quer favônio, que espalhe perfumes, E a bela um poeta, que eternize amor.

A voz de Cândido, a princípio trêmula e abatida, bem depressa tornou-se firme, normal e somente comovida, como lho estava pedindo o seu cantar mavioso e terno; desde logo o mancebo esqueceu-se do lugar onde estava, dos olhos que o cercavam, e dos ouvidos que o ouviam. Era um artista, e como o verdadeiro artista, indiferente a tudo mais, ele só via a bela que o inspirava; e todo, todo se entregava à inspiração. Com olhares ardentes embebidos em Celina, modulava seu canto harmonioso, que parecia sair da alma.

Em profundo silêncio a assembléia mostrava-se suspensa e em êxtase; quando o mancebo acabou, soaram frenéticos aplausos... a comoção era geral; por alguns momentos não se pôde fazer mais nada.

Celina tinha compreendido aquele cantar do mancebo. O rubor de suas faces, a agitação de seu seio a traía, e ainda mais seus olhos pregados na figura graciosa de Cândido, pareciam aí presos por um encanto invencível.

Salustiano o compreendera também; a pesar seu, ele, rico e orgulhoso, sentiase curvado ante a superioridade do talento. O gênio não pede, impõe respeito, e desafia inveja.

O triunfo de seu rival desenhou-se na imaginação de Salustiano, pronto e inevitável. A cólera, o despeito, todas as paixões que do ciúme se originam, ferviam em seu peito; e como se uma idéia sinistra acabasse de luzir-lhe na alma, ele deixou cair sobre Celina um olhar feroz e terrível, lançou a Cândido uma risada medonha, e cheia de um sarcasmo infernal, e foi direito a Mariana, que conversava com outras senhoras.

– Passeemos! disse ele com desdenhosa simplicidade.

Mariana levantou os olhos, e teve medo do aspecto de Salustiano.

– Passeemos! repetiu ele.

A viúva quis ensaiar um gracejo, que disfarçasse a perturbação que começava a sentir, e disse sorrindo:

– Já se viu como é moda hoje em dia pedir-se um passeio a uma senhora!

– Passeemos!... tornou Salustiano.

Mariana ergueu-se, e ainda para disfarce da perturbação, que nela ia crescendo, disse a suas amigas:

– Não há remédio... a escrava levanta-se para acompanhar o seu senhor.

Ao atravessar da sala, Mariana encontrou o olhar de Henrique descontente, cuidadoso, e como lhe dirigindo uma queixa.

– E disse bem, senhora, murmurou a seus ouvidos Salustiano com voz grave e terrível; disse bem; a escrava levantou-se para acompanhar a seu senhor.

– Como?! exclamou a viúva; pois neste lugar, e a esta hora...

– Neste lugar, em toda parte, e a todas as horas eu hei de persegui-la sempre!

– Oh! senhor!...

– Eu disse ser minha vontade que a esta casa não voltasse esse mancebo, que detesto; impus-lhe a obrigação de fechar-lhe as portas; e hoje.... ei-lo aí... devorando com os olhos a sua sobrinha...

– Mas é que meu pai...

– Sabe, senhora, que isso se chama abusar de minha paciência e desafiar-me?

– É muito!... exclamou a mísera mulher.

– Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?..

A figura do velho Anacleto, nobre e respeitável, apareceu aos olhos de Mariana.

– Piedade! balbuciou ela: eis ali meu pai.

Salustiano arrastou a infeliz viúva para uma outra sala, e prosseguiu:

– Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.

Mariana estava pálida como uma finada.

(continua...)

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