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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Depois de alguns momentos de hesitação, ela tirou o papel que estava por baixo da flor e leu: “Honorina!... se ela me for grata, guardará a flor; mas se me desprezar, deixá-la-á cair para o lado de fora... foi o meu sonho; ah! eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...”

— E, portanto, murmurou Honorina tremendo, mas levantando insensivelmente o papel até junto do coração, e, portanto, o moço loiro era ele!...

Depois, como cedendo a um impulso repentino, a moça lançou-se para a janela... ia atirar a flor para fora... mas, antes que sua mão tocasse nela, o zéfiro da manhã, que com doçura soprava, fez a sempre-viva rolar brandamente pela janela até tombar dentro do quarto.

Como levada pela força de um milagre, Honorina olhou sorrindo-se para a flor e disse:

— Oh!... ainda bem que não fui eu!... foi o teu sopro, meu Deus!...

E, sentando-se junto do toucador com a face pousada na mão, esteve em silêncio muito tempo com os olhos fitos na flor... depois soltou um suspiro e adormeceu.

Quando Lúcia viu que ela dormia, cerrou mansamente a porta e retirou-se, dizendo em voz baixa:

— Ela o ama.

XVI

Resultados do sarau

Portanto o sarau de Tomásia não tinha sido infecundo.

Nós vimos como uma moça, que para ele fora com o coração virgem de amor, voltara possuída de um sentimento novo para ela, e que talvez, a pesar seu, seja o próprio que não conhecia. E nós vamos ver, que outros corações há, nos quais essa noite deixou vestígios mais ou menos profundos e impressões duradouras.

Uma mulher, na primavera da sua vida, bela para conquistar os olhos, pálida e graciosa para inflamar o espírito dos que a vêem, havia aparecido nesse sarau e involuntariamente arrancado a palma da vitória aos mais encantadores e vaidosos semblantes: essa mulher, pois, devia ter dado origem a dois sentimentos opostos...

Era o que tinha realmente acontecido.

Simples, modesta e formosa, Honorina, deixando o sarau, arrastara após si, sem o querer, sem pensar em tal, vinte corações de mancebos; cercada de adorações, vitoriosa sempre, a mais requestada entre todas, seguiu-a, em compensação, a inveja de algumas, o ciúme de outras, e o desagrado da maior parte das moças.

Mas ou porque o amor, quando não correspondido, é (para alguns) como uma exalação etérea, que se esvai de súbito; ou porque o coração dos nossos mancebos seja para esse sentimento, como o espelho, que reflete a imagem de todos os semblantes, esquece desde o instante em que lhe fogem; ou porque, enfim, muitos sabem amar em triste silêncio, e fazer do próprio coração um túmulo para seu amor não aceito; alguns dos adoradores de Honorina não ousaram apresentar-se mais.

Muitos padecentes infelizes contentaram-se, porque mais não podiam, em ir todos os dias passar duas vezes junto ao gradil da bela casinha de Niterói, derretendo-se-lhe os olhos sobre o banco de relva, no qual tinham por acaso visto Honorina descansando um momento.

Outros, aproveitando-se da amizade que entretinham com o pai da moça, lá foram queimar suas almas no fogo dos olhos dela, e... puseram em tributo a paciência de Hugo, e da velha Ema, a quem pagavam horas inteiras de maçada com o oferecimento de pitadas de ótimo rapé.

E porque seja destino de toda a moça bonita contar sempre entre seus sérios apaixonados algum tolo ou impertinente, Honorina tinha tido a desgraça de agradar também a Brás-mimoso e a Manduca.

Mas essa moça, a quem já conhecemos tão ardente, tão entusiasta, e (digamos assim) tão nascida para amar, conservava-se no meio de tanto fogo, insensível e fria.

Nem o mais leve favônio de esperança tinha conseguido um só de seus apaixonados. Mas o objeto do amor de tantos homens devia ser o despeito de dobrado número de senhoras.

Com efeito, elas haviam sido feridas em dois pontos por demais sensíveis. Aquele ardor, com que no sarau todos os cavalheiros procuravam dançar com Honorina; a deserção cruel, que cada bela senhora notou no círculo de seus adoradores; a multidão que cercou, acompanhou e incensou durante toda a noite a jovem romântica; aqueles cem olhos de elegantes mancebos, que estavam sempre embebidos no rosto dela; mil episódios, mil pequeninos incidentes, nenhum dos quais escapou, nem podia escapar, tudo pareceu dizer, tudo disse a Honorina — tu és a mais bela!

E no meio de cinqüenta moças dizer a uma — tu és a mais bela... tu és a rainha! é ferir, é torturar o amor-próprio de todas as outras; e o amor-próprio é o noli me tangere da mulher; é levantar aquela a um ponto, aonde não podem chegar as outras; mas para onde elas mandam por si o despeito.

E sobre esse golpe, que foi comum a todas, caiu um outro que feriu principalmente a uma.

(continua...)

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