Por Camilo Castelo Branco (1869)
Quem seis dias antes tivesse visto no palacete de Ponte o solitário cego, de fronte abatida para o peito, braços pendidos, ou agitados, a espancar as trevas interiores em busca de um lampejo que lhe deixasse entrever a vida de além túmulo! Quem agora o visse na casinha das Boticas, a brincar com um menino, a rir das criancices que não via, a folgar que Joana lhe descrevesse as cabanas da aldeia, os trajos das barrosãs, a sua maneira de dizer, as bagatelas com que pessoas alegres costumam aligeirar as horas!...
Esta incongruente transfiguração quem a operou? A esperança da luz? O contato da família feliz? A influência misteriosa do que há aí sem nome, e sem idéia nos atos da Providência?
Tudo isto, e o mais que possa ocorrer às almas inteligentes de espiritualismo, não nos dá a causa de tão capital mudança.
Eu ousaria explicar tudo em pouco. A palavra Deus abrange o incógnito de céu e terra, o incompreensível da alma, e o insondável liame de coisas que a razão natural, de pouco alcance mas inflexívelmente orgulhosa, capitula de paradoxos. Deus. Por que não?
Se Simão de Noronha delinqüíra, o açoute da justiça não lhe estalava, desde o instante da ira, nas fibras do corpo? Não se lhe apagou primeiro lá dentro a lâmpada da fé? Não lhe tirou Deus o amor paternal para o privar da ternura da filha? Não lhe fez odiosa a sociedade para o infernar bem dentro de si mesmo?
Pois se é racional reconhecer a Providência na expiação de tão longo prazo, será absurdo reconhecer-lhe a misericórdia naquele dilúculo de contentamentos, após quarenta anos de noite, de ira, de tédio, de ateísmo, de remorso, e de inferno?
Alegremente, pois, dizia o conde:
― A senhora D. Maria fala muito pouco. A senhora D. Joana é mais conversadora.
― Eu falo pouco, senhor conde?... Tenho um gênio melancólico... – disse Ângela.
― Ainda lhe não disse, minha senhora, que o seu metal de voz desperta-me recordações tristes; e, não obstante, consolo-me de a ouvir. Conheci o timbre da sua voz não vulgar em duas pessoas...
Ângela e Joana entreolhavam-se suspensas dos tardos dizeres do conde. Ele, porém, recolheu-se, abateu o rosto caído e como subitamente macerado.
― Está tão triste, senhor conde! – disse Joana. – Não queremos vê-lo assim!... Não pense no passado. Lembrese só de que vai recuperar a sua vista...
― Para ver sepulturas, e ver também onde hei de abrir a minha...
― Para ver as pessoas que lhe desejam muitos anos de alegria, e uma é minha imã... Maria, outra sou eu, e meu mano... Aqui tem já vossa excelência três pessoas que lhe querem muito...
― E eu sei quanto pode a comiseração em suas excelentes almas, minhas senhoras... Os incômodos que eu tenho já dado para me não faltar nenhuma destas niquices de velho, e de cego... A pobre Vitorina toda a noite, assim que eu gemia, estava ao meu lado... Penso que era ela; que duma ou duas vezes quem me falou foi a senhora D.
Maria, não foi?
― Fui, senhor conde. Eu estava ainda a pé nas minhas rezas, e mais minha irmã.
― Peçam a Deus por mim, virtuosas senhoras.
― Pedimos, pedimos, senhor conde – disse Joana.
― O doutor por lá anda a moirejar na vida de cabana em cabana... – disse o conde.
― É verdade. Tem dias que sai ao romper de alva e recolhe alta noite – respondeu Ângela.
― Que voz a sua, minha senhora! – repisou o cego bamboando a cabeça. – Faz-me sentir espantosas alucinações!...
― Mas eu queria que a minha voz o não mortificasse, senhor conde...
― Não me mortifica; enche-me o coração de...
― Saudades? – perguntou Joana com susto, enquanto Ângela lhe fazia sinal para não insistir em tais indagações.
― Saudades... e agonias sem nome... Hei de dizer a verdade a vossas excelências... Na minha mocidade amei uma dama, cuja voz era a da Sr.ª D. Maria; e tive uma filha, que também assim falava... Agonias e saudades... é o que me resta de ambas... Está bom... – suspendeu-se o conde sacudindo a cabeça. – Está bom!... Ora que nem aqui me deixam estas funestas memórias!... Eu estava a dizer que dei muito incômodo esta noite... Amanhã deve aí chegar o meu escudeiro, um criado que tem quarenta e tantos anos de casa, que me tem aturado muito, e que ficará ao pé da minha cama para vossas excelências e a sua criada poderem dormir descansadas.
Ângela, olhando para Joana, abriu a boca em atitude de susto, quando ouviu dizer que vinha o escudeiro. João Pedro reconhecê-la-ia logo, e com qualquer palavra de espanto perturbaria o ânimo do pai.
― Seu marido é natural do Porto, Sr.ª D. Maria? – perguntou o cego, após longa pausa.
― Sim, senhor – titubeou Ângela.
― E vossa excelência também?
― Sim, senhor.
― Queria-lhes fazer uma pergunta; mas bem conheço que é ociosa...
― Que era, senhor conde? – insistiu Joana.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.