Por Lima Barreto (1911)
Os viajantes estipendiados, dessa ou daquela forma, pelo tesouro, nas obras e artigos que publicavam, tinham sempre o cuidado de dizer que não havia mais febre amarela e o preto desaparecia. Um houve que teve intensas alegrias quando não viu negros no porto de Santos e levou essa novidade ao mundo inteiro, por intermédio de seu livro.
Os nossos diplomatas e quejando com esse tolo e irritante feitio de pensar quiseram apoiar a sua vaidade em uma filosofia qualquer; e combinaram as hipóteses sobre as desigualdades de raça com a seleção guerreira, pensando em uma guerra que diminuísse os negros do Brasil.
Não podendo organizar uma verdadeira “reserve for the blacks”, decretar cidades de resistência, estabelecer o isolamento “yankee”, pensaram na guerra em que morressem milhares de negros, embora ficando as negras a parir bebes brancos.
Não convém discutir o valor de semelhante propósito e demonstrar esse projeto dos nossos diplomatas com peças oficiais seria vão. Há inequívocas manifestações desse espírito nos jornais e fora deles; e elas indicam perfeitamente esse pensamento oculto, esse tácito desejo dos nossos homens viajados e influentes.
Por momentos, esse espírito tomou um grande ascendente sobre a nossa administração e quis concluir a sua obra de embelezamento de cidades, organizando um exército para a guerra futura. Necessitou de uma figura de um general. Os que haviam se notabilizado no Paraguai tinham desaparecido e os velhos oficiais que tinham por lá passado, estavam cansados. Sabe toda a gente que quando um grupo social tem um pensamento fortemente comum e deseja realizá-lo, inconscientemente procura um indivíduo em que encarná-lo e por ele executar o seu desígnio. Nos generais que freqüentavam os corrilhos políticos e próximos, havia a esperança.
Era um comandante, simplesmente comandante, minucioso na administração do seu batalhão, mas com cujo auxílio, os jovens oficiais, tendo nos olhos o exemplo dos países militares, julgaram ser possível criar um exército à prussiana. No seu temperamento, na sua personalidade facilmente impressionável, dúctil e maleável, que não guardava impressões e não fazia com elas um “eu” seu, um pensamento próprio, era fácil influírem essas sugestões e representar ele o papel. Os políticos levaram-no aos pináculos da carreira e da administração; e os jovens militares fizeram-no organizar espetaculosas manobras e tomar atitudes guerreiras.
Com o ascendente dos diplomatas, nesse instante aliados aos guerreiros, Bentes ganhava prestígio e parecia ir ser o executor do pensamento de ambos os grupos. Há, porém, entre os militares uma corrente mais forte que a daqueles que querem um exército adestrado, automático, garboso e eficiente; é a dos políticos. Não que eles sejam eleitores ou deputados; o que eles são é crentes nas virtudes excepcionais da farda para o governo e para a administração. A farda, a longa e pesada tradição que representa e evoca promete muito a todos que a vestem; e os militares não pesam os meios de que dispõem para realizar esse muito que lhe és prometido. Para eles, o uniforme dá qualidades especiais; todos são honestos, todos são clarividentes, todos são enérgicos. A tradição de Floriano, sempre mal analisada e sempre falseada em grandeza e poder, muito concorre para isso e faz repercutir no povo a concepção quarteleira.
Há até doutrinadores a afirmar que os grandes fatos políticos e sociais do Brasil tem sido realizados por militares. O Exército, escrevem eles, tem levado este país às costas. Ainda não havia Exército brasileiro, pois ainda o Brasil não era independente, e já aquele fazia a Independência com as milícias paisanas. A abolição foi feita porque um tenente não quis apanhar escravos fugidos. É bem possível que esse oficial não o quisesse fazer por espírito de casta ou classe; que julgasse talvez incompatível com a dignidade de seu ofício semelhante diligência; mas os teoristas não se detêm.O que aconteceu foi o que se daria hoje se mandasse o Exército executar as funções de polícia. Parece.
Justificada vagamente a excelência da política dos militares, não é de admirar que tal convicção se haja solidificado nos espíritos, tanto mais que os doutrinadores especiais não têm merecido a crítica que exigem.
Lamentavelmente não se tem mostrado a eles que a sua teoria no que é peculiar ao Brasil tem vício insanáveis; e no que toca ao mundo esquecem a consideração que durante muito tempo não houve militares nem civis e a casta dominante, donde saíam os governantes, era forçosamente a de guerreiros.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.