Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- É o diabo! Estás mal!

- Contudo, ainda não desanimei de todo e vou experimentar uma idéia, que tive agora, uma idéia para o dia de seus anos.

- Qual é?

- Uma idéia magnifica; só tu, porém, me podes ajudar.- Eu? De que modo?

- Vou levar-lhe de presente uma poesia... Que achas?

É um presente econômico.

- Mas eu não sei fazer versos; tu és quem os há de arranjar.

- Não seja essa a dificuldade. Podes contar com eles.

- Não. Há de ser já; ao contrário sei que não os pilho.

- Agora?

- Sim. Olha; ali tens uma mesa com papel e tinta; toma a fotografia para te inspirares, e mãos à obra!

- Ora, filho, mas isto é uma espiga.

- Anda! Escreve!

Teobaldo ainda recalcitrou, mas o outro insistiu por tal forma, que ele afinal não teve remédio senão fazer-lhe a vontade.

E, colocando o retrato defronte de si, compôs ao correr da pena meia dúzia de estrofes líricas, repassadas de arrebatamento amoroso; depois limou-as pelo melhor que pode e leu-as ao amigo.

- Que tal achas?

- Soberbo! com isto creio que avanço uma légua nas minhas pretensões.

E guardando os versos na algibeira:

- É verdade! Tu bem podias vir comigo à festa; é domingo. Hás de gostar.

- Pode ser... respondeu o outro

- Não; quero que venha com certeza; desejo apresentar-te a meu tio.

Teobaldo, havia muitos meses, não tinha ocasião de visitar famílias o que com a sua educação, fazia-lhe certa falta; não lhe foi por conseguinte de mau efeito o convite do amigo, e, logo que este pôs à disposição dele algum dinheiro, ficou entre os dois combinado que jantariam juntos no domingo em casa do Aguiar e seguiriam depois para o baile do comendador Rodrigues.

Depois foram daí ao teatro e à volta deste cearam no Mangini em companhia de uma francesa que se lhe agregara durante o espetáculo.

Eram duas horas da madrugada quando Teobaldo, um pouco eletrizado pelos seus vinhos italianos, recolhia-se afinal a casa, pé ante pé, para não acordar o Coruja. Mas, ao entrar no quarto, ficou surpreendido; alguém ressonava na sua cama.

Acendeu a vela; era Ernestina, que dormia o sono solto.

- Ora esta! pensou ele, tomando uma carta que acabava de descobrir sobre a mesa, e,ato contínuo, soprou o vela e tornou a sair, muito enfiado.

- Diabo! exclamou, fechando sobre si a porta da rua. Pois nem com a minha pobre cama posso contar?

Neste instante, Ernestina, que havia acordado, aparecia à janela, estremunhada e aflita.

- Que! pois não ficas em casa?! perguntou ela.

- Decerto! respondeu de baixo o moço com raiva.

- És um homem impossível!

E ouviram-se soluços.

- Impossível é a senhora! gritou ele. Creio que não podia lhe falar com mais franqueza do que falei! Fez mal em ficar!

- Sobe! pediu ela com a voz chorosa.

- Não me aborreça, replicou Teobaldo, afastando-se furioso.

E pensar, considerava o fugitivo pela rua, que não fui ter hoje com Leonília só para gozar uma noite completamente sossegada...

E, depois de alguns passos, enquanto seu pensamento trabalhava, deteve-se no meio da rua, batendo freneticamente com a bengala no chão.

- Mas isto não tem jeito! No fim de contas é uma violência que me incomoda, que me irrita, que me põe neste estado! Quero dormir, quero repousar e nem isso me permitem! Antes ser escravo! antes ser um cão, que esses ao menos descansam!

Então foi que se lembrou da carta encontrada sobre a mesa; aproximou-se de um lampião e abriu-a.

Reconheceu logo pelo sobrescrito que era de Leonília.

Teobaldo - Confesso-te que estou deveras surpresa com o teu procedimento; vejo que me enganei - não és um cavalheiro. Por tua causa enterrei--me neste arrabalde, transformei toda « minha vida e tu, logo nos primeiros dias, foges de mim como se eu fosse a peste em pessoa; ora, hás de...

Teobaldo não leu o resto; amarrotou a folha de papel entre os dedos e lançou-a fora com arremesso.

- Vão todas para o diabo! disse, e foi continuando a caminhar até à porta do hotel Paris. Bateu e pediu um quarto.

Só depois de recolhido se lembrou de que tinha consigo pouco dinheiro e, pois, não devia gastá-lo em coisas supérfluas.

- Amanhã... amanhã darei um jeito a tudo isto!... deliberou entre os lençóis. Vou falar com franqueza ao Coruja e pedir-lhe que me ajude a fugir desta crítica situação em que me acho... Ele é muito capaz de descobrir um meio, e se não descobrir, arranjarei o negócio por minha conta... Aqueles demônios das mulheres...

Adormeceu em meio deste raciocínio e tão profundamente, que só acordou no dia seguinte à uma hora da tarde.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5253545556...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →