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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

— Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...

— Estou bem assim. Não quero!

— Que tolice a tua...! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens medo?... Olha! Vou dar exemplo!

E, num relance, desfez-se da roupa, e prosseguiu na campanha.

A menina, vendo-se descomposta, cruzou os braços sobre o seio, vermelha de pudor.

— Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupila trêmula.

E, apesar dos protestos, das súplicas e até das lágrimas da infeliz, arrancou-lhe a última vestimenta, e precipitou-se contra ela, a beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os lábios o róseo bico do peito.

— Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! reclamava Pombinha estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal, que enlouqueciam a prostituta.

— Que mal faz?... Estamos brincando...

— Não! Não! balbuciou a vitima, repelindo-a.

— Sim! Sim! insistiu Léonie, fechando-a entre os braços, como entre duas colunas; e pondo em contacto com o dela todo o seu corpo nu.

Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o rogar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.

Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relinchando.

E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabelo, como se quisesse arrancá-lo aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime, inerte, os membros atirados num abandono de bêbedo, soltando de instante a instante um soluço estrangulado.

A menina voltara a si e torcera-se logo em sentido contrário à adversária, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu pranto, envergonhada e corrida. A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou animá-la, ameigando-lhe a nuca e as espáduas. Mas Pombinha parecia inconsolável, e a outra teve de erguer-se a meio e puxá-la como uma criança para o seu colo, onde ela foi ocultando o rosto, a soluçar baixinho.

— Não chores assim, meu amor!...

Pombinha continuou a soluçar.

— Vamos! Não quero ver-te deste modo!... Estás zangada comigo?...

— Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzela, desgalgando o leito para vestir-se.

— Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal com a tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!...

— Deixe-me!

— Vem cá, Pombinha! — Não vou! Já disse!

E vestia-se com movimentos de raiva. Léonie saltara para junto dela e pôs-se a beijar-lhe, à força. os ouvidos e o pescoço, fazendo se muito humilde, adulando-a, comprometendo-se a ser sua escrava, e obedecer-lhe como um cachorrinho, contanto que aquela tirana não se fosse assim zangada.

— Faço tudo! tudo! mas não fiques mel comigo! Ah! se soubesse como eu te adoro!...

— Não sei! Largue-me!...

— Espera!

— Que amolação! Oh!

— Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus!

Pombinha acabava de encasar o último botão do corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Léonie caíra-lhe aos pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias.

— Olha!... Ouve!... — Deixa-me sair!

— Não! não hás de ir zangada, ou faço aqui um escândalo dos diabos! — E que mamãe já acordou com certeza!... — Que acordasse!

Agora a meretriz defendia a porta da alcova.

— Oh! meu Deus! Deixe-me sair!

— Não deixo, sem fazermos as pazes...

— Que aborrecimento!

— Dá-me um beijo!

— Não dou!

— Pois então não sais!

— Eu grito!

— Pois grita! Que me importa!

— Arrede-se daí, por favor!...

— Faz as pazes...

— Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não me sinto boa!

— Mas eu faço questão do beijo! — Pois bem! Está ai!

E beijou-a.

— Não quero assim! Foi dado de má vontade!...

Pombinha deu-lhe outro.

— Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante!

(continua...)

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