Por Aluísio Azevedo (1891)
A certa distancia havia um grupo de rapazes e raparigas, foi até lá e perguntou se era algum deles, que tinha arremessado a pedra. Ninguém respondeu.
— Meus filhos, disse Ângelo então; aos loucos não devemos apedrejar, que são eles capazes de cair em raiva. Alguns tenho eu visto aí pela aldeia, a quem até dão pão e dão leite...
E passando a mão na cabeça de um dos pequenos, perguntou-lhe, sem cólera:
— Por que me atiraste tu a pedra?
— Era para aquele cachorro! ... disse o rapazito, apontando um cão.
— Mentes, meu filho; mas ainda que dissesses a verdade, serias pecador, porque é pecado apedrejar aos cães... Perdôo-te por esta vez e aconselho-te a que não cometas igual delito.
Afastou-se, e quando tinha feito algum caminho, ouviu de novo atrás de si:
— Ó louco!
Talvez tenham razão!... disse Ele, consigo, sacudindo os ombros.
E, com efeito, para quem só julgasse pelas aparências, Ângelo figurava um louco. Na terrível palidez do seu rosto, brilhavam-lhe os olhos sinistramente com desvairada expressão; seus lábios, que nunca sorriam, denunciavam fria e profunda angústia, que se não traduzia por palavras; um mistério de sofrimentos havia nas rugas precoces da sua fronte mais branca que o mármore das sepulturas, e os seus gestos eram lentos e como que mal governados, e o seu andar vacilante e frouxo, como o de quem caminha lentamente para a morte. Todo ele era apenas uma estranha sombra que atravessava pela terra, sem se comunicar com ela.
Estava cada vez mais fraco e mais abatido.
E não podia ser senão assim, porque Ângelo sofria muito e não tinha um momento de repouso. Durante o dia era dos seus misteres religiosos e dos seus deveres de piedade, e à noite, quando se recolhia à cama, em vez de descanso, tinha para o martirizar o tormento do sonho.
À noite, ele pertencia a Alzira. A cortesã vinha buscá-lo ao leito, e carregava-lhe o espírito com ela até a manhã seguinte.
E o mais curioso era que, naquelas duas existências, tão opostas e até tão inimigas, o cavalheiro amante da condessa Alzira conhecia o cura de Monteli e ria-se intimamente das ingenuidades dele ao passo que Ângelo, em mente, detestava o outro e não lhe perdoava as libertinagens e os crimes.
Com o correr dos sonhos, formou-se uma secreta rivalidade entre o padre casto e o licencioso boêmio. Odiavam-se. Cada qual desejava a extinção do rival.
O presbítero, entretanto, a ninguém confiara até aí o segredo das escapulas do seu espírito, e principiava a habituar-se àquele duplo viver de sacerdote virtuoso e de folião profano.
Alzira vinha invariavelmente buscá-lo, mal fechava ele os olhos, e levava-o de cada vez a um novo lugar de prazeres.
O último passeio maravilhoso daquelas noites deixara-o profundamente impressionado, porque fora de todos o mais comovedor e transcendente, como vai ver o leitor.
Foi assim esse terrível sonho:
CAPÍTULO XI
Luta de Ângelo com a própria sombra
Ângelo, ao adormecer, viu-se logo à margem de uma formosa baía, cercada de misteriosos arvoredos, por entre os quais se destacavam ao luar os mármores de velhos palácios talhados em estilo veneziano.
Alzira veio buscá-lo numa gôndola cor de prata, guarnecida de brilhantes lanternas verdes. Ele embarcou e sentou-se ao lado dela.
A gôndola começou a deslizar indolentemente sobre as águas, onde o céu se espelhava todo azul, borrifado de estrelas, e onde as luzes dos barcos e das janelas ogivais vinham perder-se em trêmulos reflexos de mil cores.
A noite era serena e transparente. Alzira pousou a cabeça no ombro do seu amante, tomou um bandolim e começou a cantar:
As águas tem mil lampejos, Se a brisa cantando vai... Ó mar! bebei nossos beijos! Ó brisas! murmurejai!... Ai! ai! O mar tem alma, É belo o mar! A noite calma Convida a amar! Ai! ai!
Um coro longínquo respondeu noutro tom da margem aposta: Vivam os amantes Cantando aos pares! Voem distantes Negros pesares!
Alzira continuou a cantar, e Ângelo cantou depois de beijar-lhe a boca:
As águas dormem, querida; A lua brilha nos céus... Eu quero beber a vida Num beijo dos lábios teus!... Ai! ai!
E ambos repetiram:
O mar tem alma É belo o mar! A noite calma Convida a amar! Ai! ai!
O coro respondeu agora mais perto, porque a gôndola se aproximara dele:
Vivam os amantes
Apaixonados,
Morram as dores
E vãos cuidados!...
E Ângelo achou-se defronte de um lindo alpendre, construído à beira-mar e coroado de verdura e de flores.
— Saltemos! disse a cortesã, indicando a longa e branca escadaria de pedra batida pelas águas.
E os dois saltaram, galgaram os degraus de mármore, e penetraram num doce e vasto recinto, frouxamente iluminado por balões venezianos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.