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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Era quase noite, e ainda chegavam animais com caçuás cheios de mandiocas que eram despejados nas tulhas já formadas destas raízes.

Mulheres sentadas pelo chão ou em cepos, ao pé dessas tulhas, tiravam as mandiocas uma a uma, e as iam raspando a quicé, e, atirando depois dentro de cestos que eram conduzidos para junto das rodas a fim de serem elas passadas pelos ralos que circulam estas.

A casa de farinha não era mais do que um vasto alpendre aberto por todos os lados e coberto de palhas de pindoba.

No centro via-se o forno onde tinha de ser cozida a massa já apertada pela prensa e livre da manipueira. Parte dela porém, tanto que saía do pé das rodas, era lavada em gamelas e alguidares onde deixava o resíduo ou goma para os beijus e tapiocas.

A prensa estava armada a um dos lados do alpendre; no outro viam-se as duas rodas que não cessavam de girar. Quando cansavam os matutos ou escravos que as moviam eram logo substituídos por gente fresca.

Os dois matutos ali bem conhecidos, foram saudados pelas pessoas que estavam trabalhando, e, como é costume em tais ocasiões ainda hoje, trataram eles de concorrer gratuitamente com o auxílio dos seus braços descansados, o que a muitos não deixou de ser agradável.

— Venha para cá, seu Marcolino. Pegue no veio da roda, e desmanche-me esta mandioca que está custosa de acabar — disse um.

— E eu ponho de boa vontade em sua mão, Marciano, este rodo. Não precisa mexer muito a massa: o forno não está muito quente e não há risco de queimar-se a farinha — disse outro.

— Prepara os beijus Mariquinhas — disse o Marciano a uma rapariguinha morena e cacheada que, com as mangas arregaçadas, lavava em um alguidar uma porção de massa.

Mariquinhas sorriu e continuou no seu trabalho que lhe absorvia toda a atenção.

Pouco depois chegaram dois cunhados de Felisberto, que tinham feito parte do regimento volante da freguesia.

— Então que fizeram ? — perguntaram muitos a uma voz logo que os viram entrar.

— Nada. Vocês pensam que pegar o Cabeleira é o mesmo que raspar mandioca, ou comer farinha mole ?

— Não o viram nem com os olhos, seu Quinquim ?

— Qual, senhor ! Cabeleira de minha vida !

— Encontramos muita onça, e muita cascavel, mas do Cabeleira nem novas nem mandado. Há quem diga que ele a esta hora já está nos sertões dos Cairiris.

— Qual Cairiris, senhor ! Amanhã hei de dar com esse dunga — disse o Marcolino.

— O compadre Marcolino jura que o viu hoje junto das cachoeiras do rio — acrescentou o Marciano.

— Mas não nos mostrou o cabra durante todo o dia — respondeu Agostinho.

— Está bem, senhores, não falemos mais nisso. Os senhores estão desfazendo agora no meu dizer, talvez amanhã a coisa já seja outra. Eu sou um pérapado, é certo, mas muito verdadeiro.

— Ninguém duvida de sua palavra, Marcolino.

Um negro que estava metendo lenha no forno virou-se então para o matuto, e, de improviso, lhe dirigiu este verso:

Vosmecê, seu Marcolino,

Vai atrás do Cabeleira ?

Se quiser pegar o cabra,

Monte na basta louceira.

Ainda bem não tinha terminado o seu repente, quando um caboclo que, a um canto do alpendre estava lavando em um cocho uma porção de mandioca, se saiu com esta resposta:

Monte na besta fouveira,

Ou no cavalo cardão,

Não há de pegar o cabra

No meio desse mundão.

Reinou então silêncio no alpendre para só se ouvirem os dois repentistas. Estava travado um desses desafios que são tão comuns nos sertões do Norte, e, muitas vezes, pela facilidade das rimas e originalidade dos conceitos, chegaram a oferecer versos que podem figurar entre os mais primorosos monumentos da literatura natal. O negro replicou:

Se você gosta do bicho

Porque rouba, e mata gente,

Veja que alguém não lhe tire

As orelhas pra presente.

O caboclo respondeu:

Mete, negro, a tua lenha

No teu forno, caladinho;

Mas não te metas com o homem;

Podes ficar sem focinho.

O negro:

Eu que sou negro nas cores

Mas não negro nas ações,

Se fosse atrás do malvado,

Cortava-lhe os esporões.

O caboclo:

Para o negro que se mete

Onde não lhe dão entrada

Não tem faca o Cabeleira,

Tem uma peia ensebada.

O negro:

Eu respeito a meus senhores

E senhoras que aqui estão;

Mas porém não levo em conta

Quem não teve criação.

O caboclo:

Caboclo do pé da serra,

Criado à beira do rio,

Eu sempre tratei com gente,

Porque sustento o meu brio.

O desafio, tão bem encaminhado, foi interrompido pela chegada de um cavaleiro. Era o Felisberto que voltava da vila.

A lida na casa de farinha continuou não obstante até alta noite, entre risos e cantigas.

(continua...)

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