Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Jacinta, porém, não era uma hipócrita. Os seus sentidos podiam iludi-la, o seu entusiasmo cercá-la de ficções que lhe pareciam realidades. Mas, do mesmo modo que Joana d’Arc e outras personagens célebres, era sincera, quando referia suas visões e seus êxtases. A sua inspiração produzia maravilhas.
Sobretudo, é digna de atenção e de curioso estudo uma certa semelhança que se encontra nas visões, nos êxtases e nas perseguições do Demônio, que se referem a Jacinta, com o que neste mesmo sentido se encontra na história de Santa Teresa. Fazendo notar esta semelhança, não é minha intenção aplicar à história de Santa Teresa as observações que acabo de escrever a respeito da exaltada ou inspirada donzela fluminense; quis apenas indicar que Jacinta, tendo pleno conhecimento da vida daquela santa podia talvez em suas visões e em seus êxtases reproduzir com a imaginação o que já tinha gravado em seu espírito. Como quer que fosse, a virtude imensa da donzela inspirada, a sua reputação e a constância com que guardava o propósito de retirar-se para um convento, não só acabaram por triunfar da oposição materna, mas levaram uma outra jovem a imitar e seguir aquele exemplo. Francisca, irmã de Jacinta, uniu-se a esta por novos laços e marchou pelo mesmo caminho.
As duas irmãs preparavam-se para embarcar em um navio com destino a Lisboa, onde, conforme uma licença obtida, tinham de escolher o convento a que se deviam recolher, quando se tornou impossível a viagem em conseqüência dos graves resultados de uma queda que deixara Jacinta perigosamente enferma.
Melhorando um pouco, depois de muitas semanas de dolorosos sofrimentos, Jacinta, que não podia ainda vencer a distância que a separava da matriz de sua freguesia, apoiava-se no braço de sua irmã e ia com ela ouvir missa e entregar-se aos exercícios da devoção na ermida de Nossa Senhora do Desterro, onde estavam habitando os religiosos capuchinhos italianos, que ali ficaram até o ano de 1742.
Um dia, voltando da ermida as duas irmãs, adiantaram-se pela estrada de Matacavalos, e por acaso notaram uma antiga chácara que nesse lugar havia, e que se denominava da Bica. A chácara estava abandonada e sem cultura, a casa em completa ruma; o sítio, porém, era então solitário e recomendou-se muito às religiosas donzelas por ser contíguo ao monte de Nossa Senhora do Desterro e vizinha à ermida.
Jacinta mostrou grande empenho por aquela chácara, e vencidas algumas dificuldades, obteve-a mediante a intervenção de seu tio materno Manuel Pereira Ramos, que a comprou ao tenente-coronel Domingos Rodrigues Távora, seu proprietário.
Que pretendia fazer Jacinta? Qual era o seu pensamento? Ninguém o adivinhou talvez.
Corria o ano de 1742, quando isso se passava; e no dia 25 de março, Jacinta, chamando para junto de si o padre José Gonçalves, seu irmão, confiou-lhe um projeto que devia ser por ela em breves horas realizado e que até então cumpria ficasse abafado em profundo segredo. O padre habituado a considerar a irmã uma serva querida de Deus, respeitou esse segredo religiosamente. Na madrugada do seguinte dia, Jacinta saiu, acompanhada do padre José, dirigiu-se à ermida de Nossa Senhora do Desterro, onde ouviu missa, confessou-se e comungou, e de volta seguiu para Matacavalos, e entrando na casa arruinada da chácara, disse para sempre adeus aos lares paternos e ao resto do mundo. O único tesouro que trouxera consigo fora uma imagem do Menino-Deus. Mas na casa não encontrou nenhum nicho, nenhum oratório. Não se desconsolou por isso. Com a auxílio do padre José, improvisou junto de uma parede um altar provisório, feito de varas convenientemente dispostas e ornado de flores e de ervas odoríferas que ela foi colher perto de uma fonte que no quintal havia. Foi aos pés desse altar singelo e rude, mas certamente agradável ao Senhor, que Jacinta rezou as suas primeiras orações naquele retiro. Levantando-se no fim de uma hora, abraçou seu irmão repetiu-lhe as últimas despedidas que o encarregava de levar a seus parentes e amigos, e pediu-lhe que dissesse a sua irmã que da sua vontade dependia vir, se quisesse, encontrá-la e acompanhá-la naquele abrigo ameno e puro que do mundo a separava.
Jacinta não tinha esquecido sua irmã, quando tomara a resolução de retirar-se perpetuamente para o asilo que preparara. Muito escrupulosa, porém, não queria que por sua influência direta Francisca desse um passo que só a mais decidida vocação devia determinar. Queria esperar pela irmã, e não conduzi-la.
Francisca não tardou em mostrar-se ao lado de sua irmã. Logo no dia seguinte o padre José Gonçalves a veio trazer ao retiro do Menino-Deus.
As duas irmãs, arrancando-se aos tumultos da cidade, aos
gozos do lar doméstico e ao amor dos parentes para viver na solidão e no
silêncio, para entregar-se mais livremente à penitência e para consagrar suas
almas só ao amor de Deus, quiseram até esquecer seus nomes de família, tomando
outros que já eram do Céu.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.