Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Juliana, tu zombas de mim como a creança atormenta aquelle que por amal-a muito
deixa por ella escravisar, e cede sempre aos seus caprichos...
— Julgas-me pois creança, Fábio?...
— Oh ! muito ! muito creança és ainda, e precisas bem de um amigo devotado que vele por ti !
— E esse amigo... provavelmente...
— Serei eu, e nenhum outro o seria como eu, tu o sabes.
— Fábio, esse nosso passeio começa um pouco melancolico, o que não é muito admissivel em uma festa.
— Mas, indispensavel é que assim seja ; es]cuta, Juliana: tu estás ameaçada de um grande perigo ..
— Aqui ?...
— Aqui mesmo, e em toda a parte: na tua mão estou vendo um annuncio da desgraça que presinto...
— Na minha mão ?... será este ramalhete de violetas ?... perguntou a moça, comprimindo uma risada.
— Sim, e não rias: tu aspiras com insaciavel deleite essas flores, e não te lembras de que as flores ás vezes têm veneno e ás vezes matão.
— Oh ! a violeta é uma flor sem espinhos tem
um perfume suavissimo...
— Juliana, os perfumes das flores podem matar.
— Não creio
— Já se tem visto amanhecer morta a pessoa que dormio em uma sala fechada onde se deixarão flores odoriferas.
— Agradecida; dormirei com o meu ramalhete de violetas, deixando aberta a porta do meu quarto.
— Ha porém nas flores venenos de outra especie ; ha o veneno de seducção, Juliana, o veneno que lança nellas o homem perigoso e fatal que as offerece a uma donzella inexperiente.
— Fábio !...
— Jorge de Almeida te faz a corte, e tu o amas...
— Que te importa ?...
— Que me importa !... meu Deus !... Juliana, não é ciúme, é o proprio amor sem esperança que me inspira, e me obriga a fallar. Foge desse homem, repelle-o, porque é indigno de ti; não o conheces : é um libertino, um miseravel estragado, corrompido pelo vicio, que não respeita nem a família que o recebe, nem a honra da mulher pura que o ama.
— Fábio, disse com seriedade Juliana, comprehendo o ciume que despedaça o coração: não comprehendo porém a calumnia que mancha os labios de um amante infeliz.
—Juliana!
— Estou fatigada ; leva-me á cadeira que deixei.
— Deus permitia, minha amiga, que não te lembres nunca chorando do que me ouviste nesta sinistra noite !
— Sim... farei por esquecer-me, para estimarte como d'antes.
— Juliana !... atira para longe de ti esse ramalhete de violetas ! acredita no que te digo : ha flores que envenenão e matão.
— Deve ser uma morte deliciosa !... uma morte de flores !...
— Creança ! louca !
— Se um dia resolver-me a acabar com a vida, matar-me-hei com o veneno das flores.
— Desgraçada ! desgraçada !...
Fábio e Juliana entrarão na sala do baile, e puzerão termo á sua conversação ; quando porém ella sentou-se e agradeceu ao mancebo este lhe repetio ainda com um tom prophetico :
— Teme o veneno das flores !
VII.
Nos bailes a hora mais propicia para os namorados é aquella em que a fadiga começa para os indifferentes; então estes olhão e quasi que não vêm, ouvem e quasi que não escutão. É a hora da solidão no seio da multidão, hora em que o espaço se abre pára o amor, que vôa audacioso de coração em coração.
Jorge de Almeida conhecia perfeitamente a theoria dos bailes, e foi portanto quando sentio que tinha chegado aquella hora, que foi offerecer o braço a Juliana, convidando-a para um passeio.
— Dei-lhe, quando chegou, a minha mão a beijar, disse Juliana depois de alguns minutos de conversação apaixonada ; diga-me : foi um premio ou um castigo ?...
— Um premio que mereci, respondeu Jorge.
— Porque ?...
— Porque cheguei tarde ao seu baile pelo cuidado do nosso amor e de minha ventura.
— Longe de mim?...
— Apezar disso.
__ Ecomo ?...
— Recebi cartas de meu pai e de minha mãi, tive de entreter o portador que é um bom amigo da nossa familia.
— E as cartas ? perguntou Juliana anciosa.
— Como as desejava.
— Então seus pais convém no nosso casamento ?...
— Meus pais approvão a minha escolha ; já se informarão a respeito de sua familia, e dentro de um mez chegarão á corte para abençoar sua nova filha.
Juliana reteve uma exclamação de prazer; não poude porém abafar um suspiro.
— Suspiras, Juliana ?...
— Oh ! sim! e este suspiro sahio-me do fundo do coração.
— Amas-me, então ?
—Ainda o perguntas ?...
Jorge apertou o braço de Juliana contra o peito, e a
donzella commovida e feliz inclinou a cabeça e quasi que a encostou no hombro
do mancebo, que sentio em sua face o brando contacto das madeixas de sua amada.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.