Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Quando teve de receber os cumprimentos de Cândido, cobriu-se seu rosto de uma onda de rubor... por que corava?...
Forçada a responder, sua resposta foi o murmurar de algumas frases trêmulas, quase imperceptíveis, que ela deixou passar por entre seus lábios, hesitando e tremendo... por que tremia?...
– Ah! D. Celina!.. tinha exclamado Mariquinhas, correndo para ela logo que entrou na sala. D. Celina! Estás hoje bela como nunca o foste tanto!
– Deveras?... perguntou Celina alegremente.
Dantes não lhe importava tanto o parecer bonita, gostava de sê-lo, como todas as moças. Desde, porém, os últimos três dias, a “Bela Órfã” desejava redobrar os seus encantos.
– Olha, tornou Mariquinhas, falando-lhe ao ouvido; estás tão galante, que, se eu pudesse, fazia-me moço durante esta noite.
– Mas para quê?...
– Para amar-te.
– Ora...
– Para pedir-te um beijo.
– Meu Deus! respondeu Celina corando; se tu foras um moço não te atreverias a ofender-me pedindo-mo; e sendo moça como és, não mo pedes, e eu to ofereço.
Aqueles dois rostos tão novos e tão lindos aproximaram-se, e soou o ruído de
um beijo.
– Não tem tanta graça como teria o outro, disse Mariquinhas sorrindo.
– Ah! D. Mariquinhas! Você é mil vezes maliciosa.
Felícia, e muitas outras senhoras moças e belas também, vieram cercar a “Bela Órfã”.
A música soou, convidando a dançar.
Os mancebos correram às senhoras; todas as contradanças, e mais ainda do que aquelas que se poderiam dançar nessa noite, foram pedidas e prometidas.
Insensivelmente a “Bela Órfã” correu com os olhos todos aqueles mancebos, como se algum procurasse entre eles... pareceu primeiro temer encontrá-lo, e depois entristecer-se por não vê-lo... realmente buscava ela alguém?
Cândido não se apresentou para dançar.
Sem motivo algum plausível, Celina negou a todos a segunda quadrilha; ela mesma não sabia por que a negava.
No último serão a “Bela Órfã” tinha dançado essa contra dança ao lado direito de Cândido; quereria a moça repreendê-lo assim, por não vir pedi-la naquela noite de seus anos?...
Há na vida das moças em que a educação e a inocência podem mais que as idéias livres e desabusadas de algumas sociedades que tudo pervertem, fatos tão pequeninos, ações tão leves e ingênuas, pensamentos soltos ao acaso, mas que às vezes envolvem tão importantes mistérios do coração, que é possível que tudo quanto se estava passando interiormente em Celina, esses receios misturados de desejos, essas inconseqüências enfim, não fossem mais do que a voz da natureza, que a próprio pesar da “Bela Órfã”, ou sem que ela o sentisse, estivesse bradandolhe no coração: – eu já amo!...
Tinham por momentos cessado as quadrilhas e valsas. Respiravam os pares. Duas senhoras haviam já, no intervalo daquelas, cantado.
– Então, Celina, disse o velho Anacleto, vindo direito à sua neta; já esqueceste uma promessa que te fizeram?...
– Que promessa?...
– A de se deixar ouvir aquele senhor, que como sempre lá está sentado no seu canto?...
– Ah! disse a “Bela Órfã”, como recordando-se.
– Vamos a isto, tornou o velho.
E indo direito a Cândido, o trouxe para junto das senhoras.
– Eis o nosso novo cantor... teremos uma estréia esta noite.
Houve um movimento de curiosidade.
– O que pretende deixar-nos ouvir?... perguntou uma senhora.
– Uma ária de Bellini certamente, disse outra.
– Não, minhas senhoras, ousarei cantar um romance.
– Em italiano?...
– Também não, senhora, em nossa própria língua.
D. Mariquinhas fez com os lábios um momo de desagrado. Tinha razão.
O gosto estragado da época, que se faz excessivo em tudo, o é também na música, e como tal deu ao canto italiano um triunfo, uma palma universal, lançou para fora de nossas salas todos os cantos pátrios, como desterrou das igrejas os hinos sagrados. Rossini, Bellini, Donizetti e Auber, têm entre nós um tríplice trono, no teatro, nas salas, e na igreja.
– Pois então faça-nos o obséquio de dirigir-se ao piano, disse uma senhora.
– Não toco esse instrumento, respondeu o mancebo. Costumava em outro tempo acompanhar-me de harpa.
– Harpa! murmurou Mariquinhas ao ouvido de Celina; harpa; o moço é romântico.
Apareceu um criado trazendo a harpa de Cândido, que tomou lugar perto das senhoras.
Naturalmente acanhado, o mancebo afinou o instrumento com a cabeça baixa, medroso de encontrar todos aqueles olhos fitos nele.
Salustiano colocara-se defronte de Cândido com decidida intenção de confundi-lo com seu sorrir desdenhoso e sarcástico, e com sua luneta firmada insolentemente.
Soou um harpejo moderado, sonoro e vibrante...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.