Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Com efeito, uma hora depois um interessante mancebo, cujos vestidos sem dúvida muito decentes estavam, todavia, em censurável desalinho, saltou dentro do batel, que regressou para a corte: uma metamorfose completa se havia, pois, operado no marinheiro de cabelos pretos.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
— Mãe Lúcia! mãe Lúcia!... dizia Honorina à sua ama, tendo um pequeno papel diante dos olhos; eis aqui!... é, portanto, sempre ele!...
— Quem, menina?...
— O homem que trabalha por enlouquecer-me!... que põe uma carta debaixo da janela do meu quarto... que se veste de cabeleireiro para cortar um anel de meus cabelos, que se veste de marinheiro para viajar comigo, e deitar um escrito dentro de minha luva!...
— Pois ele escreveu...
— Sempre as mesmas... as minhas próprias palavras!... ouve: “Honorina! eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja o mesmo amor, é por força bem belo!...” — E, portanto, é que ele lhe ama muito!
— Oh!... mas quem se esconde é porque teme causar horror!
— Senhora!
— Está bem, mãe Lúcia, eu quero dormir... e amanhã que me deixem na cama até bem tarde.
— Pois será assim, menina. Boa-noite!
— Boa-noite!...
Mas como dormir?... como conciliar o sono, quando se tem tanto em que pensar, tantas idéias a ligar, e, sobretudo, um mistério a decifrar?... porém, Honorina lutou em vão com esse mistério; o homem que a amava, nunca lhe tinha aparecido tal qual era; havia-se mostrado sempre ridículo ou estúpido... com uma cabeleira ruiva, ou com uma de cabelos pretos... longos e tão grosseiros, que pareciam nunca haver conhecido um pente, e ser bem capazes de rebentar o mais forte que primeiro ousasse querer domá-los!... era por força feio... detestável... horrível o homem que se escondia assim.
E do feio... detestável... horrível o pensamento de Honorina fugiu, procurando um objeto bonito... e amável, em quem por alguns momentos ao menos pousasse; e pousou na imagem do moço loiro que se havia sentado no terrado, triste e pensativo defronte dela e de Raquel.
Oh! aquele mancebo, apesar da extravagância e leviandade que mostrou, falando tão imprudentemente de seus amores a duas jovens desconhecidas, deveria ter deixado no ânimo de Honorina uma impressão bem agradável e talvez bem perigosa para que ela, com o pouco tempo que o viu, se lembre tão bem dele, que sua imagem a ocupe por momentos.
Com efeito, Honorina tem diante de si a graciosa figura do apaixonado mancebo: ela o vê ora melancólico e pensativo, suspirando silencioso... depois com sua cabeça levantada... seus cabelos loiros, caídos em belos cachos sobre as orelhas... seus brilhantes olhos dardejando vistas de fogo... ela escuta sua voz doce e comovida... enleva-se, vendo o triste sorriso de seus lábios... enfim, ela o vê partir... escapar-se por entre a multidão, que entra no terrado, com o lenço sobre o rosto, como para não ser conhecido...
Mas a imagem, que desapareceu, volta de novo para repetir-se a mesma cena... duas... três... mil vezes até ao romper da aurora.
É que em seus sonhos de inocência e de amor, Honorina tinha desde muito tempo muitas vezes sonhado uma bela imagem de fantástico mancebo, que aquele moço venturoso viera realizar!...
A natureza havia despertado com a aurora, e o ruído que traz o dia arrancou Honorina de suas meditações.
A moça lembrou-se pela primeira vez de si própria, e sentiu então que sua cabeça ardia... que ela não estava boa... que ela estava talvez próxima a padecer também a mesma moléstia do moço loiro.
Semelhante idéia fez estremecer Honorina, e, pois, apertando a cabeça com as mãos, exclamou:
— Não! não! meu Deus!... isso não!
E cerrou as pálpebras para nada ver; e cobriu a cabeça para dormir.
Mas, apesar dela, a imagem do moço loiro vinha outra vez para diante de seu espírito, como uma doce harmonia, que se tem ouvido, que se deseja esquecer, e que se está repetindo no pensamento sem querer!...
Honorina ergueu-se espantada do que se passava nela, e, atirando-se fora do leito, exclamou de novo:
— Não!... não!... isso não, meu Deus!...
Lúcia, cuja câmara era imediata à de Honorina, e que ouviu a exclamação dela, temendo alguma novidade, veio ver a sua querida filha; mas ficou estática e silenciosa, observando-a da porta. Honorina desassossegada e aflita correu para a janela... abriu-a, levantou a vidraça para deixar entrar as auras da manhã, e... recuou surpreendida...
Na janela estava deposta uma sempre-viva, e por debaixo desta um papel com algumas linhas escritas.
Uma sempre-viva!... Honorina lembrou-se do sonho do moço loiro. Por conseqüência, a jovem adorada era ela!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.