Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Isto é magnífico! – disse o general. Encostando-se confortavelmente. – que ar de frescura tem esta casa! Parece que a felicidade tem um aroma particular, primo Pizarro! – ajuntava o general voltado para onde se lhe figurava estar o fidalgo de Chaves. – Onde vossa excelência me trouxe!... Como isto me há de parecer o céu, quando eu puder ver a casa e os bem-aventurados que vivem nela!... Ainda me não deu a honra de me apresentar a sua senhora, a seu filhinho e a sua irmã, senhor Costa.
― Eu chamo-os: são os criados de vossa excelência que eu apresento. Maria e Joana, venham oferecer os seus serviços ao senhor conde.
Entraram as duas senhoras, e Vitorina com um menino de ano e meio no colo.
O conde fez menção de levantar-se, quando sentiu frêmito de vestidos.
― Não se levante vossa excelência – susteve Francisco. – Aqui estão minha mulher e minha irmã.
― O cego estendeu as mãos, tomou as das senhoras.
― A da esquerda qual é? – perguntou ele.
― É minha mulher.
― Parece-me, notou o conde, que a presença de um ancião cego a comove sensivelmente, minha senhora!... Vossa excelência tem a sua mão tremula e ardente... Se tem compaixão desta velhice em trevas, deixe estar que seu marido lhe há de dar a satisfação de me abrir outra vez o mundo diante destes olhos.
― Deus o permita... – balbuciou Ângela.
― Pouco hei de viver – tornou o conde -; mas eu queria ainda ver o Sol, um dia que fosse, o céu que não vejo há dois anos, contados noite por noite, porque eu nunca mais distingui o dia das trevas. Vossas excelências ser ao testemunhas da minha doida alegria... Ouço a voz dum menino que chama sua mãe... É o seu filhinho, minha senhora?
― É sim, senhor conde.
― Deixe-me beijá-lo, se ele me não tiver medo.
A criancinha foi facilmente aos braços do velho, deixou-se beijar, e ficou a olhá-lo no rosto com infantil fixidez.
― Eis aqui a florinha que desabrocha sobre uma sepultura... – disse o velho. – Que mavioso grupo, não é? Foi em França, não sei em qual palácio de Carlos X, que eu vi assim uma pintura, e uma legenda que dizia: Aurora que alumia um túmulo... Ora vá, vá, anjo, que deve estar admiradinho de se ver entre as tristes ruínas duns setenta anos!... Aqui o tem, senhora D. Maria...
Ângela bem queria esconder o seu pranto do fidalgo de Chaves, que a contemplava como espantado de tamanha sensibilidade; mas a comoção vencia a infundado receio de denunciar-se.
― Senhor conde – disse Pizarro – razão tinha vossa excelência para supor que a senhora D. Maria estava compadecida. Ela aí está com o rosto coberto de lágrimas.
― Obrigado à sua compaixão, obrigado mil vezes, minha senhora! – agradeceu o cego com a voz tremente.
― Maria – disse Francisco – dá ordem a que venha um caldo para o senhor conde.
― Eu não tenho vontade; mas o meu dever é obediência ao médico – condescendeu o conde.
― E vossa excelência jantará um pouquinho mais tarde – continuou Costa, dirigindo-se ao parente do conde.
― Eu vou retirar-me porque me esperam em Monte Alegre, e almocei para jantar à noite. Voltarei aqui, se me dá licença, de três em três dias.
― Sempre que vossa excelência queira honrar-me. Depois de amanhã há de ser operado o senhor conde.
Mandei chamar um ajudante a Chaves, e só então aqui estará.
Retirou-se o flaviense, felicitando o primo pela ventura de ter achado o seio de tão carinhosa família.
― Quando aqui estiver três dias, cuidarei que é a minha – disse o cego tomando o caldo das mãos de Ângela, enquanto Joana lhe aconchegava as almofadas para encosto dos braços.
E, no correr deste lance, Vitorina, com as mãos postas, e os beiços chegados às pontas dos dedos, e a cabeça um pouco inclinada, não desfitava os olhos absortos da cabeça de Simão de Noronha.
Estava ela comparando o gentil capitão de cavalaria, o mancebo de olhos negros e tez morena, o fragueiro caçador que ensinava cavalos a galgar penedias, enfim, o galhardo amante de D. Maria d’Antas. E, quando a idéia da velha tropeçava neste nome, como num túmulo, queria ela ver, à beira do ancião, o espectro terribilíssimo duma mulher estrangulada.
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Ao outro dia, o cirurgião foi ver os seus enfermos no circuito de algumas léguas, recomendando à esposa:
― Sê o que deves ser, minha filha. Sopesa o coração, se o sentires mais pusilânime do que eu desejo.
― Conta comigo, Francisco. Ele não me vê chorar.
As duas senhoras sentaram-se em frente do canapé, costurando nas faixas e panos necessários para o curativo. Antoninho agatinhava à preguiceira, e passeava amparando-se à beira do estofo ou aos joelhos do cego, que nunca o deixava passar sem um beijo. A criança ria às guinadas, quando vingava iludir o velho, que se fingia zangado com o engano.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.