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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Todos se entreolharam com certo medo, apesar do estranho não ter nenhum ar de existência sobrenatural.

Um mais animoso resolveu-se a falar ao intruso:

— Quem é o senhor?!

— Eu! Eu sou Francisco II, rei da Prússia.

E toda aquela miudeza de gente escafedeu-se por todas as portas e janelas da sala.

Careta, Rio, 5-11-21.

Outras noticias

Da minha viagem à República dos Estados Unidos da Bruzundanga, tenho publicado, no A.B.C., algumas notas com as quais organizei um volume que deve sair dentro em breve das mãos do editor Jacinto Ribeiro dos Santos.

Estou fora da Bruzundanga há alguns anos; mas, de quando em quando, recebo cartas de amigos que lá deixei, dando-me notícias de tão interessante terra. De algumas vale a pena dar conhecimento ao público que se interessa pela vida desses povos exóticos e paradoxais.

Diz-me um amigo, em carta de meses atrás, que a Bruzundanga declarou guerra ao império dos Ogres; mas não mandou tropas para combatê-los ao lado dos outros países que já o faziam. Tratou unicamente de vender uma grande partida de tâmaras dos seus virtuais aliados, com o que o intermediário ganhou uma fabulosa comissão.

Outra carta que de lá recebi, mais tarde, conta-me que os governantes da Bruzundanga resolveram afinal mandar uma esquadra para auxiliar os países amigos que combatiam os Ogres.

Logo toda a Bruzundanga se entusiasmou e batizou a sua divisão naval de "Invencível Armada".

Como lá não houvesse um Duque de Medina Sidonia, como na Espanha de Felipe II, foi escolhido um simples almirante para comandá-la.

A esquadra levou longos meses a preparar-se e com ela, mas em paquete, partiu também uma missão médica, para tratar dos feridos da guerra contra os Ogres.

Tanto a esquadra como a missão chegaram a um porto intermediário, onde, em ambas, se declarou uma peste pouco conhecida. Chamado o chefe da comissão médica, este respondeu:

— Não entendo disto... Não é comigo... Sou parteiro.

Um outro doutor da missão dizia:

— Sou psiquiatra.

E não saiu daí.

— Não sei — acudiu um terceiro, ao se lhe pedir os seus serviços profissionais — não curo defluxos. Sou ortopedista.

Não houve meio de vencer-lhes a vaidade de suas especialidades, de anúncio de jornal.

Assim, sem socorros médicos, a "Invencível Armada" demorou-se longo tempo no tal porto, de modo que chegou aos mares da batalha, quando a guerra tinha acabado. Melhor assim...

Não foram só estas duas cartas que me trouxeram novas excelentes da Bruzundanga.

Muitas outras me chegaram às mãos; a mais curiosa, porém, é a que me narra a nomeação de um papagaio para um cargo público, feita pelo poder executivo, sem que houvesse lei regular que a permitisse.

Um ministro de lá muito jeitoso, que andava fabricando em vida, ele mesmo, as peças de sua estátua, julgou que fazendo uma tal nomeação... tinha já em bronze o baixo relevo do monumento futuro à sua glória.

Consultou um dos seus empregados que estudava leis e a interpretação delas em Bugâncio, sabia a casuística jesuítica, além de conhecer as sutilezas da Escolástica, a ponto de ser capaz de provar com a mesma solidez a tese e a antítese, desde que os interessados em uma e na outra o retribuíssem bem.

Dizia a lei fundamental da Bruzundanga:

"Todos os cargos públicos são acessíveis aos bruzundanguenses, mediante as provas de capacidade que a lei exigir".

O exegeta ministerial, depois de verificar que o papagaio tinha nascido na Bruzundanga, e era, portanto, bruzundanguense, concluiu, muito logicamente, que ele podia e lhe assistia todo o direito de ser provido em um cargo público de seu país.

Argumentou mais com Augusto Comte que incorporava à Humanidade certos animais; com o "artemismo", crença de determinados povos primitivos que se julgam descendentes ou parentes de tal ou qual animal, para mostrar que o anelo íntimo dos homens é elevar esses seus semelhantes e companheiros de sofrimentos na terra. Emancipá-los.

A Arte, dizia ele, foi sempre por eles. Citava as esculturas assírias, egípcias, gregas, góticas que, embora idealizados ou estilizados, denunciavam um culto pelos animais que, injustamente, chamamos inferiores.

Na arte escrita, para demonstrar o que o sábio consultor vinha asseverando, lembrava La Fontaine, com as suas fábulas, e modernamente, Julcs Renard, com as suas interessantes Histoires Naturelles.

Nas modernas artes plásticas, nem se falava, continuava ele. A representação artística de animais, por meio delas, já constituía uma especialidade.

Foi por aí...

E, de resto, dizia ele quase no fim, quem não se lembra do papagaio de Robinson Crusoé?

Devemos, portanto, exalçar o papagaio, que é um animal que fala, rematou afinal.

(continua...)

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