Por Lima Barreto (1911)
— É a mesma revolução que a química fez na agricultura. Penso assim há muitos anos, mas não me tem sido possível experimentar os meus processos por falta de meios; entretanto, em pequena escala já fiz.
— O quê?
— Uma barata chegar ao tamanho de um rato.
— Oh!... mas não tem utilidade.
— Não há dúvida. Uma experiência ao meu alcance, mas logo que tenha meios...
— Não seja essa a dúvida. Enquanto eu for ministro, não lhe faltarão. O governo tem muito prazer em ajudar todas as tentativas nobres e fecundas para o levantamento das indústrias agrícolas.
— Agradeço muito e creia-me que ensaiarei outros planos. Tenho outras idéias.
— Outros? — fez em resposta o Xandu.
— É verdade. Estudei um método de criar peixes em seco.
— Milagroso! Mas ficam peixes?
— Ficam... A ciência não faz milagres. A coisa é simples. Toda a vida veio do mar, e, devido ao resfriamento dos mares e à sua concentração salina, nas épocas geológicas, alguns dos seus habitantes foram obrigados a sair para a terra e nela criarem internamente, para a vida de suas células, meios térmicos e salinos iguais àqueles em que elas viviam nos mares, de modo a continuar perfeitamente a vida que tinham. Procedo artificialmente da forma que a cega natureza procedeu, eliminando, porém, o mais possível o fator tempo, isto é: provoco o organismo do peixe a criar para a sua célula um meio salino e térmico igual àquele que ele tinha no mar.
— É engenhoso!
— Perfeitamente científico.
Xandu esteve a pensar, a considerar o tempo perdido, olhou o russo insistentemente por detrás do monóculo e disse:
— Não sabe o Doutor como me causa admiração o arrojo de suas idéias. São originais e engenhosas e o que tisna um pouco essa minha admiração é que elas não partam de um nacional. Não sei, meu caro Doutor, como é que nós não temos desses arrojos! Vivemos terra à terra, sempre presos à rotina! Pode ir descansado que a República vai aproveitar as suas idéias que hão de enriquecer a pátria.
Ergueu-se e trouxe Bogoloff até a porta do gabinete, com seu passo de reumático.
Dentro de dias Gregory Petrovich Bologoff era nomeado diretor da Pecuária Nacional.
CAPÍTULO VII
Houve sempre quem se zangasse com os estrangeiros que perguntavam lá nas suas terras, se aqui, nós andávamos vestidos; e concluísse daí a lamentável ignorância dos povos europeus. Essa irritação trouxe aos nossos dirigentes, diplomatas e gente do mesmo feitio de espírito, a necessidade de pensar em medidas que levassem os franceses a ter uma mais decente reputação de nós mesmos. Aborrecia-se essa gente tão bonita, tão limpa, tão elegante, que não vissem o Brasil nela mas nos índios nus, nas serpentes, nas florestas e nas feras. Era um erro palmar de geografia que precisava ser emendado de vez e apagado do espírito estrangeiro essa feição tão deprimente para a nossa pátria. Há quem pense que daí não advém mal algum; que a representação de um país na imaginação de outro povo há de ser sempre inexata; e na de um país de Segunda ou quarta ordem, feita por estranhos, há de dominar forçosamente o aspecto mais nitidamente diferente que ele possuir.
Outra fonte de irritação para esses espíritos diplomáticos estava nos pretos. Dizer um viajante que vira pretos, perguntar uma senhora num “hall” de hotel se os brasileiros eram pretos, dizer que o Brasil tinha uma grande população de cor, eram causas para zangas fortes e tirar o sono a estadistas aclamados. Ainda aí havia um lamentável esquecimento de um fato de pequena observação. Hão de concordar esses cândidos espíritos diplomáticos que o Brasil recebeu durante séculos muitos milhões de negros e que esses milhões não eram estéreis; hão de concordar que os pretos são gente muito diferentes dos europeus; sendo assim, os viajantes pouco afeitos a essa raça de homens, hão de se impressionar com eles.
Os diplomatas e jornalistas que se sentiam ofendidos com a verdade tão simplesmente corriqueira, esqueciam tristemente que por sua vez a zanga ofendia os seus compatriotas de cor; que essa rezinga queria dizer que estes últimos eram a vergonha do Brasil e seu desaparecimento uma necessidade.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.