Por Aluísio Azevedo (1895)
E, enquanto ele se afastava, muito feio com o seu ar giguento e mal amanhado, Ernestina murmurava:
– Foi-se aquele ingrato e ainda por cima deixa-me aqui este maldito Coruja, que a gente só de olhar para ele parece que fica doente! Credo! Que estupor!
XIII
Teobaldo saiu de casa verdadeiramente aborrecido.
- Malditas fossem todas as mulheres! Maldito fosse ele, que não conseguia dar um passo sem tropeçar logo num rabo de saia! Arre! Era preciso despedir-se de Leonília por uma vez e fazer com todas as outras o que fizera com Ernestina! Esta com certeza estava mais que despachada!
E, assim considerando pelo caminho, principiou a passar uma revista mental aos seus amores.
- No fim de contas, pensava, só trouxera de tudo isso conseqüências ridículas ouperniciosas, que serviam apenas para lhe atrasar a vida e afastá-lo dos seus verdadeiros interesses. Ah! mas desta vez havia de tomar uma resolução, uma medida séria! Naquele andar não conseguiria nunca fazer carreira... A ter de ter amores, que fossem estes com mulheres de quem lhe viesse algum benefício real: mulheres que, lhe abrindo os braços, abrissem-lhe também as portas de um futuro garantido e cômodo. Estava disposto a amar, sim senhor, contanto que lhe viesse daí algum proveito imediato para as suas ambições.
Com estes cálculos chegava ao largo de S. Francisco quando o Aguiar lhe bateu no ombro. Virou-se, sem ter tempo de compor um sorriso amável.
- Oh! Estás com uma cara! disse-lhe aquele.
- Não é nada! Tédio.
- Eu também não me sinto de bom humor. Dormi mal A noite passada e tive enxaqueca durante todo o dia. Vou beber para ver se distrai; queres vir também? - Não, obrigado; estou incapaz de tudo.
- Anda daí.
- Está bom. Vamos lá.
E à mesa do botequim, defronte dos copos de cerveja:
- Mas, que diabo tens tu? perguntou Aguiar.
- Desanimado, filho, totalmente desanimado! Não imaginas a série de contrariedades que me sucedem todos os dias. Agora, para cúmulo de caiporismo, é o diabo da Leonília que entende perseguir-me de um modo atroz!
E contou minuciosamente o que ela fizera.
Aguiar abriu os olhos com exagero de espanto.
- Que! Pois seria crível? Ora, para que lhe havia de dar! exclamava a rir. Paixão aguda, com caráter pernicioso! Podre Leonília.
- Pobre, mas é de mim! emendou Teobaldo, muito preocupado.
- De ti? Tu o que és é um grande felizardo! disse o outro. As mulheres procuram-te e são capazes de ir ao inferno para te descobrirem!
- Não esta má fortuna! Dava-a de boa vontade a quem a quisesse!
- Deixa-te disso...
- Juro-te, meu amigo, que estou deveras aborrecido com tudo isto e que de bom grado abandonaria o Rio de Janeiro, se me achasse em condições de fazer uma viagem.
Depois de alguns outros copos, os dois rapazes ficaram mais expansivos. Aguiar confessou então, que a causa do seu mal-estar não era a tal noite mal passada, nem tampouco a suposta enxaqueca, mas o diabinho de uma prima que ele tinha, um diabinho de quinze anos, que ele adorava, sem conseguir arrancar-lhe um ar de sua graça.
- Não te corresponde?
- Qual! parece até embirrar comigo. Talvez me confunda com os tipos que a cobiçam por causa do dote...
- Ah! é rica!
- Tem cento e tantos contos... Ah! mas tu sabes perfeitamente que eu, só por parte de minha mãe, possuo mais do que isso, sem contar com a morte de meu avô.
Teobaldo soltou um suspiro.
- Já vês... disse o outro, que não é pelo dote!
- Está claro!
- Pois, apesar disso, não consigo agradá-la. Tenho empregado todos os meios; não penso rim outra coisa; persigo-a por toda a parte, e a malvadinha cada vez mais cruel! - Decerto; toda mulher foge enquanto a perseguem. Deixa-a. de mão; finge indiferença, e verás que ela se chega.
- Homem. e dizes bem. vou fazer-me indiferente.
Mas acrescentou logo depois:
- Qual! É impossível! Não tenho forcas para isso!... Será bastante vê-la, encontrá-la na rua, vara que eu perca de todo a cabeça e não saiba mais regular os meus atos. Fico louco!
- Oh! mas então a coisa é séria!
- Que queres tu? Adoro-a!
- Ela é bonita?
- Encantadora! Queres ver o retrato?
E, tirando do bolso uma fotografia.
- Olha.
- É linda. com efeito. Pois. filho, se estás tão apaixonado, é insistir, porque a água mole em pedra dura...
- Sim. mas já me vão faltando as esperanças de conseguir qualquer coisa... ri. sabes? Ela depois de amanhã faz anos; hesito ainda no presente que lhe devo dar...
- Não lhe dês nada.
- Impossível. Há uma festa em casa da família. O pai, o comendador Rodrigues que protege as minhas pretensões sobre a filha. convidou-me.
- Ah! O pai protege-te?
- Pai, parentes, amigos, todos me protegem, menos ela.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.