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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

O último cúmplice de seus passados desvarios sensuais, e a quem ela devia agora aquela dolorosa situação, era um pobre diabo de um boêmio, rico e libertino, que um belo dia lhe fugiu dos braços e nunca mais lhe deu notícias suas.

Ângelo, ao ouvir-lhe a confissão, não teve um gesto de censura, nem de repugnância; era antes a compaixão o que se revelava na sua fisionomia.

— Resigne-se... disse-lhe ele tranqüilamente; e seja boa mãe de seu filho. Não o desampare! Oh! por cousa nenhuma desta vida o desampare! sofra com energia as conseqüências do seu erro, aceite as represálias sociais que daí procedam, como elementos novos de sacrifício, e continue na obra da sua reabilitação.

E não alterou em nada a estima e o respeito que lhe votava; ao contrário, depois que a infeliz sentia crescer o fruto da sua culpa, Ângelo parecia mais compassivo e mais atencioso para com ela. Ia vê-la, dava-lhe notícias dos seus pobres, encarregava-se de a estes levar socorros em seu nome e, quando orava, pedia a Deus que poupasse à mísera os dissabores que ainda lhe reservava.

Foi naquela célebre noite da tempestade, em que Salomé o esperava com impaciência, que a viúva deu à luz o filho.

Ângelo veio então da casa dela, supondo-a livre de perigo; mas agora, justamente nos últimos dias em que o pároco era vítima dos sonhos com Alzira, a parturiente fora acometida de febre e achava-se em risco de vida.

O fato, logo que transpirou, tornou-se escandaloso. Não se falou noutra cousa em Monteli durante esses dias.

A viúva, depois de uma noite de delírio, em que repetia sem cessar o nome do presbítero, faleceu nos braços deste.

Outros padres estavam presentes e cochichavam à socapa, felizes por terem afinal descoberto bom pasto para a sua campanha de difamação. Ângelo, de todo desprevenido contra o mal que pudessem julgar dele, dava ampla expansão às lágrimas que a morta lhe merecia e rezava de joelhos ao lado do cadáver.

Depois do enterro, o presbítero pensou no pequenito, que assim tão tristemente se orfanava logo ao entrar no mundo, e resolveu, visto que a falecida não deixava parentes, carregar com ele para a casa de uma família pobre, que se quisesse encarregar da sua criação.

Imagine-se o que não fizeram os seus adversários com todo este, combustível para a intriga.

Por tal modo tramaram e conspiraram contra Ângelo, que o público começou a prevenir-se contra ele, e afinal, quando depois viam atravessar lentamente pela estrada o seu triste vulto contemplativo e enfermo, segredavam já em voz brejeira:

— Anda apaixonado!... Não se consola da morte da viúva!...

Ângelo seguia em silencio, indiferentemente, sem distinguir o murmúrio da calúnia que lhe esvoaçava em torno dos pés.

Mas os seus contrários rosnavam, ameaçando-o:

— Ah! Finges pouco caso?... Pois deixa estar que te mostraremos quem pode mais: tu ou nós!

Era bem singular esta luta de alguns padres, apercebidos com todas as armas da intriga, contra aquele pobre cura indiferente à maldade humana, caminhando abstrato pelo seu destino, com a alma inconscientemente caída por terra, e os olhos da razão postos no céu.

E, não obstante, os padres lá iam para a frente, ganhando terreno contra Ângelo e agitando de Monteli até Paris os seus estandartes de difamação. Quanto aos romeiros, quanto aos que vinham à casa do presbítero arrastados pela fé no milagre, a esses o sincero pároco falava francamente e dizia-lhes que—Milagres, só Deus os podia realizar, porque a tanto chegava o seu infinito poder; mas que ninguém devia levar tão longe a vaidade, que se julgasse digno de provocá-los ou merecê-los, sem incorrer em desagrado aos olhos do Senhor, que só amava aos simples e despretensiosos.

Que voltassem para os seus lares! exortava-lhes Ângelo, que voltassem para os seus lares!... Os homens para o trabalho que dá o pão de cada dia, e as mulheres para junto dos seus filhos e dos seus deveres de esposa.

— Ah! dizia abertamente, sem armar ao menor efeito. Ah! meus irmãos! quando o lar é abençoado e honesto, não precisa que venham buscar Deus aqui tão longe; Deus irá lá ter espontaneamente e far-se-á lembrado a cada instante. Sejam bons e leais, e Deus será convosco! Não o ofendam, pretendendo que eu faça o que só ele tem o direito de fazer!

Este modo de proceder era a pior arma que Ângelo podia vibrar contra os seus adversários, porque neutralizava o pábulo da maledicência; mas os molinistas, assim que deram com isso, mudaram de tática e começaram a persegui-lo por outra face.

Um dia o presbítero ficou muito surpreendido, quando na rua gritaram atrás dele:

— Ó louco! Ó louco!

E, desde então, convenceu-se de que não era amado, nem respeitado, por uma parte da população de Monteli.

De outra vez, depois de ouvir aquelas mesmas palavras, recebeu nas costas uma pedrada.

Voltou-se, abaixou-se e apanhou a pedra.

(continua...)

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