Por Bernardo Guimarães (1883)
O primeiro passo que Frederico tentou, foi procurar travar conhecimento e relações com o senhor Bazilio, dono da escrava. Mas Bazilio era um homem excentrico, de difficil trato quasi incommunicavel, que não dava ingresso em sua casa sinão a rarissimas pessoas. Elle e sua respeitavel e veneranda esposa vivião vida mysteriosa e retrahida ; não sahião de casa sinão aos domingos pela madrugada para ouvirem missa na Sé, o marido bem embuçado em seu comprido capote de gola em pé, que lhe tapava e cara até os olhos, e ella toda embiocada em sua mantilha. Fóra disso só se lhes enxergava ás vezes a ponta do nariz por entre as rotulas, que apenas entreabrião momentaneamente para espiarem a rua.
O seu trafego de escravos tambem se fazia algum tanto á sorrelfa e com certo mysterio ; mas os habitantes de S. Paulo já o conhecião, e quando algum por necessidade de dinheiro ou por qualquer outro motivo desejava desfazer-se de algum escravo, já sabia a que porta iria bater. Quando tinha reunido uma collecção sufficiente, elle os comboiava para fóra da capital, quasi sempre em direcção aos ricos municipios do norte da provincia e para a mata do Rio de Janeiro, onde os negociava vantajosamente com os opulentos fazendeiros cafesistas daquellas paragens. Estas suas sahidas erão, como todos os actos de sua vida, feitas com segredo e mysterio nas horas mortas da noite. De um dia para outro o velho com toda a sua familia, a qual consistia em sua mulher e seu comboi de escravos, desapparecia de casa, sem que ninguem sou— besse para onde se havia dirigido.
Bazilio, além de sua absoluta insociabilidade, tinha particular ogeriza á classe academica, da qual se arrepelava como de côbra venenosa ou cão damnado, sem duvida por que já alguma vez teria sido victima de seus desapiedados motejos.
Tudo isto difficultava summamente a generosa empresa de Frederico, e a tornava quasi impraticavel. Entretanto não desanimou. Por tres vezes bateo palmas á porta de Bazilio; por tres vezes uma voz esganiçada gritou do interior — não está em casa, — sem que ninguem lhe apparecesse á porta. Entendeo por fim que só por intermedio de um terceiro, que gozasse da amizade e confiança de Bazilio, poderia penetrar naquella espelunca e entobolar negociação com semelhante casmurro.
Emquanto Frederico andava em diligencias para encontrar um intermediario prestimoso, que o puzesse em communicação com o velho Bazilio, derão-se acontecimentos que vierão inteiramente burlar seus planos, e derrocar todas as esperanças que começavão a embalar a imaginação do pobre Carlos.
CAPITULO XXI
Vendida I
Desanimado de achar accesso junto á respeitavel pessoa do senhor Bazilio, Frederico mesmo na Academia entrou a fazer pesquizas e indagações entre os continuos e bedéis a fim de ver si podião informal-o das relações e amizades que por ventura o tal homem entretinha na cidade. No fim de quatro ou cinco dias achava-se tão adiantado como d'antes. Como porém não julgava de grande urgencia a solução daquelle negocio, não o tangia com grande afan e diligencia, esperando que com tempo e perseverança sempre havia de deparar um meio de achar-se face a face com o senhor Bazilio.
Entretanto Carlos começou de novo a não comparecer ás aulas e durante toda uma sema. na não foi visto na Academia, o que causava grande cuidado e inquietação a Frederico. Os dois amigos não se frequentavão com assiduidade em razão da distancia que separava suas residencias, morando cada um na extremidade de bairros diametralmente oppostos. Perguntando Frederico por seu amigo aos companheiros que com elle moravão, estes lhe responderão que Carlos estava a ponto de ficar completamente maniaco; o namoro e a preguiça o estavão pondo a perder; vivia trancado no quarto, comia pouco e ás vezes nada, sahia á rua de quando em quando, e voltava sempre com ar cada vez mais lugubre e deconsolado.
O mais breve que lhe foi possivel, Frederico dirigio-se á casa de Carlos, onde o encontrou em um estado de prostração e desaiento, que fazia dó. Soube então pela bocca do proprio Carlos, que ha mais de oito dias a janellinha, onde costumava ver a formosa escrava, se conservava fechada Nos dois ou tres primeiros dias ainda havia supportado com alguma resignação e sem desesperar o desappare cimento de sua amante. Talvez estivesse doente, ou quem sabe, si tinhão sido percebidos os seus colloquios de janella, e por isso era agora severamente vigiada por seus senhores ? e tambem, que horror ! . . . quem sabe si teria sido vendida ! ?. . . Esta ultima hypothese era como um estylete envenenado a pungir continuamente o coração do pobre rapáz. Para livrar-se de tantas e tão crueis incertezas deliberou indagar pela vezinhança o que teria sido feito da menina. Os vizinhos porém, que sabião tanto como elle do que se passava em casa do senhor Bazilio, não pudérão dar—lhe informação alguma.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.