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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Repetiu o major as palavras de Cirino, acentuando-as de certo modo:

—Então o doutor já estava quase perto do Sucuriú, não é?

—De fato. Ali encontrei uma pessoa que me devia, há meses um dinheiro...

—Um dinheiro? perguntou o vigário. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem será?

—Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sôfregas.

Prosseguiu o major implacável:

—Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra! . .

Foi quase a balbuciar que Cirino procurou continuar:

—Sim... certo tropeiro... mandou ordem para mim cobrar... de um parente uma bolada... Também eu tinha que... pagar outra pessoa... que...

—Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor velo receber dinheiro ou desembolsar? Não é uma e a mesma coisa... —Por certo, apoiaram os circunstantes.

Cirino fez repentina parada nas suas explicações.

—Também, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando cá. Tenho de ir para lá do rio...

—Vai até as Melancias? Indagou o coletor ajeitando o nome de um pouso para ver se acertava.

—Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar de tão terrível inquirição, mudou de tática.

—Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...

—Já adivinhei, exclamou o vigário cortando a palavra a Cirino, o doutor vai casar.

—Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguém lhe vai roubar a noiva!...

—Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar às mãos, ponderou o padre.

Por instante, deram o acanhamento e o silêncio de Cirino azo a muitas observações.

—Parabéns! dizia um.

—Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.

—Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não há nada...

Prosseguiu o padre:

—Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois coelhos... E o senhor e o Manecão.

—Na verdade, concordaram os presentes.

—Mas, onde se meteu ele? perguntou um deles.

—Há pouco estava aqui...

—Quem? o Manecão?

—Sim...

—Ali vem ele! anunciou alguém

No fim da rua, aparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavalo que sofreava com firmeza e mão adestrada.

Era a personificação do capataz de tropa.

Cabelos compridos e emaranhados, ar selváticos e sobranceiro tez queimada e vigorosa musculatura constituíam um tipo que atraia de pronto a atenção.

Metidos os pés numa espécie de polainas de couro cru de veado, grandes chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos coldres da sela e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o tropeiro no exercícios da sua lida.

—Nosso Senhor... convosco, disse ao chegar, erguendo ligeiramente a aba do chapéu com a ponta do dedo indicador.

—Bons dias, Senhor Manecão? respondeu por todos o major, ou melhor, boas tardes... Já sei que desta feita vai de batida..

—Boa dúvida, grazinou o vigário, vai ver a pequerrucha.

Sorriu-se o capataz com melancolia:

—Não é por isso senhor vigário. Não me deixo anarquizar por mulheres; mas, enfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma viagem...

Haviam Cirino e Manecão? ficado no meio dos curiosos.

Fitaram-se: um, indiferente e altivo no modo de encarar; outro, descorado meio trêmulo

—Este cujo é o cirurgião? Perguntou à meia voz Manecão? adernando no selim para o lado do coletor. A Cula da venda me disse que tinha chegado...

Tem-me cara de enjoado.

—Xi! retrucou o outro, mas tem cabeça. Por aí fez um despotismo de curas.

Cirino, notando que tratavam dele, cumprimentou com um sorriso de amabilidade

—Boa tarde, patrício.

—Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom áspero.

E, olhando para o Sol, acrescentou:

—Vejam lá o que é um homem estar como mulher... a bater língua... A tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente, adeus... Senhor major, até mais ver... Senhor vigário, breve estou por cá...

Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão? partiu em boa marcha.

Aproveitando, por seu turno, aquela saída rápida, que rompera a cadela dos que o rodeavam, apertou Cirino a mão do major e tomou rumo do Rio Paranaíba em cuja margem contava passar a noite.

Mal desaparecera, e choveram comentários que nem saraiva.

—Notou o senhor, disse o vigário para o major, como esta mudado? .. todo jururu...

—Nem tanto, contrariou o coletor, nem tanto...

O Senhor Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.

—Hão de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar, que ai há dente de coelho.

Durante aquela noite e muitos dias subsequentes, repetiu a vila todas estas célebres palavras.

(continua...)

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