Por Franklin Távora (1876)
— E veio você fazer-nos perder mais um dia, compadre Marcolino — disse um dos milicianos, aborrecido e fatigado do infrutífero lidar. — Nem você chegou a ver o Cabeleira. Viu algum rangedor de cachos compridos, e já pensou que era o mameluco.
— Eu não digo uma coisa por outra. Vi-o com estes olhos que a terra fria há de comer. Falei com ele como estou falando com você agora. Lá o ele ter voado como passarinho, ou Ter-se metido pela terra adentro como tatu ou jararaca, é caso à parte.
— Você viu periquito e cuidou que era arara ou canindé — replicou o miliciano.
— Compadre, você está fazendo pouco em mim. Ora, deixe-se disso, que eu não sou de lérias, como você bem sabe. É tão certo que vi o Cabeleira, que até lhe tomei o cavalo que ele me havia furtado, o meu alazão.
— Pois, então, pode montar no seu alazão e voltar à casa. De lembranças à comadre Maria e lance a bênção a meu afilhado Gazuza. Se encontrar outra vez o Cabeleira, de-lhe um abraço por mim, um beliscão e uma boquinha.
— Eu, se tivesse ainda o meu alazão, juro-lhe que havia de desencavar o Cabeleira, ou com a vida ou com a morte.
— E que fim levou o seu quartau ?
— Espaduou de muito andar. Parece que desde a hora em que o maldito demo o tirou do meu quintal não soube mais o que era comer nem beber, e andou num cortado.
— Se você quer servir-se do meu cavalo castanho, ele nos está ali ouvindo. Desta vez estou falando sério.
— Onde está ele ?
— No sítio do Felisberto, aonde o mandei com um costal de mandioca.
— Pois aceito, meu compadre, a sua proposta. Hei de mostrar-lhe que o que digo, digo. Se eu não descobrir neste matão, ou por estas beiradas de rio o Cabeleira, hei de saber notícias dele seja onde for. Também de uma coisa tenha você certeza: quando ouvir sua mulher dizer: "Aí vem o compadre Marcolino no cavalo castanho", fique logo sabendo que, se eu não deixei o Cabeleira na embira, o deixei no buraco.
Os dois matutos achavam-se na margem esquerda do Capibaribe.
Na margem oposta levantava-se, entre umas laranjeiras e uns oitizeiros, uma casa de bom parecer. Era a casa de Felisberto.
Eles atravessaram a vau o rio, e foram ter à graciosa habitação, que no meio daquele deserto atestava a existência de uma civilização rudimentar no lugar onde havia caído, sem tentativa de proveito para a sociedade que o sucedera, o gentilismo guarani digno de melhor sorte.
Do alto onde fora construída a habitação via-se o rio que corria na distancia de umas dezenas de braças, e desaparecia por entre umas lajes brancas no rumo de leste; do lado do ocidente mostravam-se as lavouras de Felisberto desde as proximidades da casa até onde a vista alcançava.
Felisberto aplicava-se quase exclusivamente à cultura da roça. No perímetro de vinte léguas em derredor era o lavrador que desmanchava mais mandioca no fabrico da farinha, que era de tão boa qualidade que competia no mercado do Recife com a farinha de Moribeca, já então afamada. Havia anos em que ele mandava para o Recife cerca de duzentos alqueires.
Um negro, uma negra, duas negrotas e três molecotes filhos dos dois primeiros faziam prodígios de valor na cultura das terras. Amanheciam no cabo da enxada e só se recolhiam quando faltava uma braça para o sol se esconder no horizonte. Estes escravos viviam porém felizes tanto quanto é possível viver feliz na escravidão. Não lhes faltava que comer e que vestir. Dormiam bem, e nos domingos trabalhavam nos seus roçados. Em algum dia grande faziam seu batuque, ao qual concorriam os negros das vizinhanças.
Quando o Felisberto se casou com a filha de Lourenço Ribeiro, mestre de açúcar do engenho Curcuranas, teve a feliz idéia de ir estabelecer-se naquele sítio que comprara com algumas economias que lhe legara um tio que vivera de arrematar dízimos de gado. Essas economias deram-lhe também para comprar duas moradinhas de casas e o negro André. Com a negra Maria, que a mulher lhe trouxera em dote, casou Felisberto o seu negro, na esperança de que em poucos anos a família escrava estaria aumentada, e por conseguinte aumentada também a fortuna do casal. Essa esperança foi brilhantemente confirmada.
Felisberto não estava em casa à chegada dos dois matutos. Havia ido à vila a negócio e ninguém sabia quando ele estaria de volta.
Eles tiraram para a casa de farinha, que ficava a um lado da casa de morada, e apresentava nesse momento um aspecto que não era o usual.
Estava-se fazendo farinha para ser a toda pressa mandada ao Recife, onde a grande falta que havia deste gênero assegurava pingue lucro ao vendedor.
Frutos do trabalho honesto e esforçado, o qual é sempre favorecido pela
Providencia, não tinham sido de todo destruídos pela grande seca os roçados do Felisberto. Ele já enumerava muitos prejuízos, mas olhando em torno de si via ainda muito com que contar na tremenda crise que reduzira o geral da população da província a extrema penúria.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.