Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Aos oito anos de idade, ou ainda muito mais cedo se se deve acreditar nos padres cujo testemunho lembrei, já era mais contemplativa e meditabunda do que se podia esperar em uma criança. Em suaves visões que a deixavam em prolongados êxtases, via às vezes Nossa Senhora, às vezes Santa Teresa, que lhe apareciam e me falavam.
Quem tem idéia dos costumes e do sentimento dos últimos séculos conceberá facilmente que fora impossível que com as histórias de santos que se contavam à menina não se misturassem também contos sinistros de aparições e perseguições do Diabo, animado pelo desejo de levar à perdição os pecadores a quem tentava.
Naturalmente Jacinta, com imaginação tão exaltada, e ao mesmo tempo com a sua infantil credulidade, teve de tremer mil vezes em face do demônio perseguidor.
Um dia em que voltava da escola, Jacinta sentiu-se arrebatada junto da igreja do Rosário, e imediatamente arrojada e submergida em uma lagoa que perto havia. A pobre inocente nesse dia não trazia ao pescoço os seus bentinhos; fez, porém, o sinal-da-cruz e achou-se logo sobre a água. Bradou por Santa Teresa, que lhe apareceu de súbito na figura de uma menina formosa, e estendendo-lhe as mãos, tirou-a da lagoa.
Mais tarde, era pelo inimigo tentador atirada do alto da barreira do morro de S. Antônio e cruelmente apedrejada. Mas logo salva pela santa da sua devoção.
Em outro dia, cena igual se passava com ela na barreira chamada de Santa Rita, e uma porção de barro que se despegara como que a encerrava em uma sepultura. Ao seu primeiro grito acode Santa Teresa, ainda na figura de formosa menina, que a arranca do abismo e senta-se com ela, fala-lhe, e ouvindo-a lastimar-se da perda de algumas pedras de um broche, corre sobre ele os dedos e de novo lho entrega perfeito e com as pedras que faltavam.
Como esta, muitas outras visões teve Jacinta, e por outros duros casos de perseguição do demônio disse ter passado. Mentia ao dizê-lo? Com que fim e movida por quem? Não havia mentira nem realidade: havia a exaltação das idéias, a imaginação, o entusiasmo criando todo esse mundo em que faziam viver essa menina extraordinária.
À medida que os anos iam passando, aumentava a devoção, multiplicavam-se as visões e os êxtases, demonstravam-se mais fortes os sofrimentos nervosos e começava a mais austera penitência.
Jacinta ainda não era moça, e já com repetidos jejuns e com o tormento dos cilícios se martirizava. Passava de noite longas horas em orações e dava o exemplo de uma angélica paciência, chorando a morte de seu pai sem levar a dor ao desespero. Moça, enfim, e bela, como fora galante criança, nenhum mancebo tocou-lhe o coração, que era somente de Deus. A donzela tinha desde muito escolhido o seu esposo e abrasava-se de amor por ele. Era uma noiva de Cristo, e desejosa de consagrar-se toda ao esposo amado, pensou no retiro religioso em que o amor e os gozos fruem-se em orações e penitências.
Desejou entrar para um convento. A mãe da piedosa donzela opôs-se aos desejos da filha. Criou-lhe obstáculos e dificuldades, negou-lhe a sua permissão e exigiu obediência. Jacinta obedeceu sem queixar-se; mas guardou inalterável e firme a sua resolução e não continuou menos no exercício da penitência a mais austera e constante.
As visões e os êxtases reproduziam-se freqüentemente. Entre outras, uma vez Jacinta viu aparecer-lhe Jesus, curvado sob o peso da cruz, olhando-a com amor, e logo depois, tirando o lenho sagrado para descansá-lo por momentos sobre os ombros dela.
Na razão direta da exaltação do espírito aumentavam também as enfermidades do corpo de Jacinta. Os fenômenos nervosos tomavam proporções assustadoras que, aliás, se explicavam então, ora pela influência maléfica do Demônio, ora por divinos milagres.
Aos 15 anos de idade a donzela sofreu um acesso nervoso que a deixou em completa insensibilidade e como se estivesse morta durante 48 horas, de modo que as disposições para o seu enterro já estavam tomadas, quando tornou a si.
As notícias de todos esses casos corriam de boca em boca pela cidade, e naturalmente eram exageradas pela imaginação do povo, que começava a considerar Jacinta uma santa, uma escolhida do Senhor.
Não faltou o prestígio do milagre para autenticar a santidade da donzela. Disse-se então, por exemplo, que tendo uma escrava dado à luz uma criança aleijada dos pés, Jacinta a curara e tornara perfeita com o simples e instantâneo contato das suas mãos.
Havia em tudo isso alguns fenômenos sem dúvida admiráveis, de mistura com falsas apreciações, devidas à ignorância e à rude credulidade daqueles tempos. As próprias relações de alguns dos êxtases da donzela indicam bem que ela sofria essa terrível enfermidade a que os médicos dão o nome de catalepsia.
O espírito dos poucos ilustrados observadores, prevenido e
dominado pelo encanto do sobrenatural, via menos do que era indispensável para
compreender e explicar a verdade dos fatos, e muito mais talvez do que
realmente se passava, para encher de absurdos a relação que deixaram.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.