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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Nada haveria que notar na extrema elegancia desse mancebo ; nas suas maneiras, no seu fallar, nos seus vestidos apreciava-se esse esmalte da boa sociedade ; não perdia pela affectação nem pela incuria.

Infelizmente, o coração de Jorge era frio como o marmore e arido como um solo esteril.

O pai de Jorge era um abastado e importante fazendeiro do interior ; mandára-o para a corte afim de preparal-o para entrar em alguma das academias scientificas do Imperio ; cego porém pelo amor mais extremoso, deixando-se levar Pelos caprichos do filho, facilitando-lhe todos os gozos e todas as distracções com o ouro que fazia chover sobre elle, surdo ou prestando de má vontade o ouvido aos prudentes avisos de amigos dedicados, acabou por carregar a sociedade com o peso de um novo e elegante libertino, em vez de offerecer-lhe um cidadão util e honesto.

Que outro resultado podem esperar os pais que abandonão os filhos aos seus proprios impulsos, e que, ainda mais, os trazem fartos de ouro na idade em que a inexperiência é um véo que esconde o mal, a paixão um fogo em que os desejos refervem, e a imprudência a sinistra aconselhadora que sempre lisonjea e precipita ainda os mais loucos anhelos ?...

Jorge de Almeida aprendeu pouco ou quasi nada nos livros, alguma cousa na boa, muito na má sociedade.

Os livros derão-lhe apenas em uma lição incompleta e nunca meditada aquellas noções vagas e insufficientes que antes perturbão do que esclarecem o espirito, á semelhança dos raios vacillantes da lampada nocturna do templo, que deixão afigurar-se quadros chimericos, e imagens fantasticas nos espaços onde não chegão com a sua luz.

A má sociedade chegou-lhe aos labios o nectar da concupiscencia e de todos osgozos sensuaes, nectar envenenado que elle bebeu até a saciedade; lançou-lhe no coração o germen do vicio, desmoralisou-se emfim.

E a boa sociedade armou-o com as exterioridades que seduzem ; além de máo que era, tornou-o perigoso, porque deu-lhe um parecer de perfeito cavalheiro, e ornou-o com o sorrir que mente, com o olhar que enreda, com o agrado que atraiçíia, com a palavra que perjura.

Em sua vida tumultuosa e desregrada, em suas relações naturalmente muitas vezes mal escolhidas, Jorge tinha já contado vinte falsos amigos e outras tantas pérfidas amantes : em breve aprendeu a rir de uns e de outras, e não sabendo distinguir as fezes da nata da sociedade, nem os seus espinhos das suas flores, descreu della e só acreditou no poder e na influencia da riqueza, que lhe abria todas as portas e lhe proporcionava mil deleitosos prazeres.

V.

Jorge entrou na sala, dirigio-se logo a Juliana, e inclinando-se respeitosamente diante delia, offerceu-lhe um formoso ramalhete de violetas.

— Porque tão tarde ?... perguntou docemen te Juliana.

— Ah ! praza ao céo que eu me tivesse feito desejar ! respondeu o mancebo, cravando no rosto da jovem um olhar atrevido e cheio de fogo.

— Se foi esse o seu desejo, tornou, ella abaixando os olhos, realisou-o cruelmente.

— Em tal caso receba eu um generoso perdão dessa felicidade que me custou um doloroso sacrificio de metade de uma noite ditosa!

Juliana offereceu a mão a Jorge, que a beijou cora respeitosa cortezia para os olhos de todos, e com um ardor que somente a donzella sentio.

Jorge foi comprimentar a mãi de Juliana, que o recebeu com amizade e confiança.

O ramalhete de violetas era mais um depois , tantos que bem pudera passar quasi despercebido ; ficou porém em todo o resto da noite na mão- de Juliana, que aspirando suavemente e a cada momento o doce aroma das flores, parecia querer passal-o todo para o coração.

Amava Juliana as violetas de preferencia a todas as outras flores, ou o encanto daquelle ramalhete provinha do mancebo que o offerecêra ?,.. Era facil adivinhalo.

Todos o adivinhavão talvez, porque os homens murrauravão segredos, observando

Juliana, e as senhoras sorrião olhando para ella.

No eratanto, a donzella radiava de prazer e felicidade, e tão preoccupada ou embevecida se achava que estremeceu ouvindo a voz de Fábio que se approximára, sem que fosse sentido.

VI.

— Fábio ! tu me fizeste mal, disse Juliana.

O mancebo suffocou no seio um gemido pungente, e ficou alguns momentos sem dizer palavra, olhando cora tristeza indizivel para a formosa moça.

— Que me queres ?... dize.

— Um passeio, Juliana, balbuciou Fábio.

— Não : tu és exigente de mais : já contradansámos, já valsámos, já passeamos : hoje não tornaremos a passear.

— Um passeio, Juliana: um passeio ainda menos por mim, do que por ti.

Fábio estava tão triste que a sua camarada de infancia, delle se compadecendo, levantou-se e tomou-lhe o braço.

— Vamos, disse ella sorrindo ; mas confessa que faz máo ver.

— Não, Juliana ; todos sabem que somos como dous irmãos, e que também, como irmãos nos amamos.

— Como irmãos só !... tornou ella rindo outra vez.

(continua...)

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