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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Sem aquela quantia, como livrar-se do empenho que tomara, senão dando conta da tarefa, e incorrendo portanto no desprezo e aversão de Berta, que jamais lhe perdoaria? 

  Eis a ânsia em que se debatia a alma de Jão Fera. 

  Após longa obsessão, ergueu-se impelido por uma idéia, que de repente acudira, e sem despedir-se partiu. Saído ao terreiro, no lugar onde há pouco se encontrara com Barroso, seus olhos baixos deram com um objeto, que lhe causou reparo. Era uma bolsa de couro, e parecia recheada de moedas. 

- Oh! Chico! 

  Acudindo o vendeiro, Jão empurrou com a coronha do bacamarte a bolsa: 

- Guarda isto para entregar àquele safado! 

   Não tinha andado cem braças o capanga, quando ouviu os psius do Tinguá a chamá-lo. Era o caso que sentindo o Barroso falta da bolsa, voltara por ela, justamente quando o vendeiro entrava para guardá-la; e, sabendo que a achara o capanga, deixoulhe uma moeda de alvíssaras, talvez com a esperança de aplacá-lo. Para entregar essa gorjeta correra o Chico ao alcance de Jão. 

- Toma para ti. Eu não aceito dinheiro de semelhante peste. 

E sem mais foi-se. 

  Pouco além, ganhando um atalho para desviar-se da estrada, lobrigou ao longe um vulto entre a folhagem. 

  Era um mascate, dos muitos que percorrem a pé os circuitos das cidades do interior, onde se demoram semanas a vender pelas fazendas e arraiais. 

  Descansavam, à sombra de uma árvore, da excursão que já tinha feito naquela manhã, e da qual lhe surtira bom lucro, pois estava ele entretido em contar os miúdos, que tirava da algibeira da borjaca. Colocando-os, uns sobre outros, formava os maços de dez, aos quais ia acomodando em uma grande carteira de marroquim azul, aberta diante dele sobre a grama e já bem fornida de notas. 

  Ao lado, estava a maleta de jóias e miudezas, que ele costumava trazer às costas, presa por uma correia, e um grosso bordão ferrado, que servia ao seu braço musculoso não só de arrimo à fadiga, mas de arma formidável para a defesa. 

  Muito embebido estava o italiano em seus cálculos, pois não percebera a aproximação de Jão Fera, que em pé atrás do tronco, e a dois passos dele, o tinha em seu poder. 

 

XXIX 

Desencargo 

 

Na posição em que se achava Jão Fera bastava-lhe carregar a mão sobre a nuca do mascate para subjugá-lo, sem que este pudesse fazer ou sequer tentar a mínima resistência. 

Entretanto pela mente do capanga, desse homem feroz que se fizera instrumento de ódios e vinganças alheias, nem de longe perpassou a idéia de que tinha ali à mercê da vontade e ao alcance do braço, uma quantia superior àquela de que necessitava para desempenhar sua palavra, e pela qual dera de bom grado alguns dias de vida. 

  Bem diverso foi o pensamento que lhe sugeriu o inesperado encontro. 

  - Este tem de sobra, bem que podia me emprestar! murmurou consigo. 

Já promovia o passo a fim de aparecer ao mascate, quando foi tolhido por um receio, que o estacou. Sua presença imprevista, naqueles ermos e em semelhante ocasião, devia necessariamente sobressaltar o italiano, que sem dúvida se julgaria ameaçado, e o tomaria, a ele Jão Fera, por um ladrão de estrada. 

  Tanto bastou para que o capanga sem mais demora se retirasse com todas as precauções de modo a não pressenti-lo o mascate; e, chegado que foi a alguma distância, afastou-se rapidamente daquele lugar. 

  Nos três dias que decorreram desde então, debalde engendrou Jão Fera meios de obter a soma precisa. Frustraram-se todas as esperanças, uma após a outra.   Jogou e perdeu os magros cobres que tinha. Alguns ajustes entabulados falharam: porque o genro que desejava aliviar-se do sogro, e o cafelista a quem azoinava um vizinho resinguento, tinham resolvido esperar pela mudança da política, para com mais segurança aviarem esse negócio. 

(continua...)

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