Por José de Alencar (1872)
- Pobre Luísa!... Não me quiseste crer, quando te mostrei o caráter de Fábio, como ele é, homem do dia ou antes do momento, sem elos no passado, nem cuidados no futuro. Esses homens são na sociedade a imagem das plantas aquáticas, vivendo à flor d’água, sem raízes na terra, nem ramas no ar, ervas sempre, como são meninos sempre aqueles homens. Cobrem-nas lindas flores, uma folhagem sempre viçosa; mas não há aí tronco, nem âmago. Bem me compreendeste, e tua alma te disse que eu tinha razão! Mas tu já o amavas. Afundou-se ainda mais em suas reflexões:
- E agora? Agora que se atira à sociedade, faminto dos prazeres e divertimentos que tanto cobiçou, quererá ele, ou poderá, nunca mais voltar ao amor obscuro, suave e calmo da família?...
No meio de suas cogitações foi Ricardo surpreendido pelo galope de um cavalo que lhe vinha no encalço, e não tivera o tempo de voltar-se quando “Edgard” flanqueou o “Galgo”.
- Não me esperava, aposto! disse Guida com um gesto garrido.
Perturbado com o gracejo da moça depois do que entre eles houvera, e sobretudo com aquele a sós em um caminho deserto, não soube Ricardo que responder.
- Errou o caminho? perguntou ao cabo de alguns instantes.
- Não! Quis ficar atrás; e escondi-me.
Era a verdade. Reparando na demora de Ricardo, suspeitou da intenção do paulista, que ela sabia quanto era desconfiado. Sentindo-se culpada, e ré de seus assomos altivos, assentou de apagar aquele ressentimento.
Pronta em suas resoluções, lançou o cavalo a todo galope, e desaparecendo à vista dos companheiros, ganhou sobre eles uma grande distância. Chegando ao ponto onde cruzava uma picada que vai ter ao Moke, apeou-se e escondeu-se no mato com “Edgard”.
Daí viu passar o rancho, e notando a ausência de Ricardo, esperou que este passasse, para alcançá-lo.
Os dois moços seguiam ao lado um do outro, mudos, e enleados daquele encontro. Afinal Guida, revestindo-se da sua gentil petulância, rompeu o silêncio:
- Eu sou uma estouvada! disse ela voltando-se para Ricardo com expressão adorável. E como ele não respondia:
- Confesse! Não é esse o juízo que forma de mim?
- Nem tanto, replicou Ricardo no mesmo tom. Se dissesse caprichosa e travessa, eu não reclamaria.
- Entretanto minha avó me chama de “Santinha”.
- Talvez as santas sejam assim quando meninas.
- Que quer? Estou habituada a me fazerem todas as vontades!
- O que é bem perigoso.
- Como assim?
- A vontade?... É a fera mais indomável que eu conheço, bem entendido, para aqueles que a têm, porque não dou esse nome ao influxo que dirige certos indivíduos, como o vento impele o navio. A vontade é a soberania d’alma, a acentuação de sua superioridade moral; é o rei que temos em nós, e que pode tornar-se de repente um déspota, contra o qual não há nem o recurso da república. Nas senhoras, este autócrata chama-se capricho, como outrora em Roma lhe deram o nome de imperador, moda que pegou. O capricho é um tirano do gênero de Augusto. Ama o despotismo brilhante de luxo e galas, representando no tom da alta comédia, por bons autores, e com rica decoração! Ah! perdão que estou falando política!... exclamou o advogado interrompendo-se a rir.
Ricardo aproveitara o primeiro tema, para quebrar com uma conversa banal, mais ou menos salpicada do sal e humor do espírito, o acanhamento da singular situação em que se achava, só com essa moça, em sítio ermo.
- Que tem? Eu gosto da política... para rir, bem entendido.
- É para o que ela serve.
- Mas quanto ao capricho, não concordo com sua opinião.
- É natural; as posições são tão diversas!
- Ou os gênios.
- E o que é o gênio senão o molde que a sociedade imprime n’alma desde o berço, pela educação primeiro, e depois pela opulência ou pobreza, pela grandeza ou humildade de condição?
- Então acredita que não é a natureza, porém o mundo, que nos faz o que somos? Creio que se engana. Há pessoas que vivem deslocadas na posição em que a fortuna as colocou, e a quel essa posição não pode transformar a alma que receberam de Deus.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.