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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

A voz que aboiava naquele momento tinha um timbre forte e viril, que não perdia nunca, nem mesmo nas inflexões mais ternas e saudosas. Ainda quando sua melodia se repassava de suavíssimos enlevos, sentia-se a percussão íntima de uma alma pujante, que brandia às comoções do amor, como o bronze ferido pelo malho. 

O gado dos currais, que já se tinha acomodado e ruminava deitado, levantando-se para responder ao canto do aboiador, mugia não ruidosamente como pouco antes, mas quebrando a voz, em um tom comovido, para saudar o amigo. 

Alina estremecera, escutando os sons vibrantes da canção: e seu olhar vago, volvendo em tôrno cruzou-se além com o olhar de Agrela, que de longe a fitava. Nesse relance chocaram-se as almas de ambos. À muda interrogação da moça, o ajudante respondera afirmando; e à súplica instante que seguiu-se, opôs um pálido sorriso, cuja ironia tinha um travo amargo e triste. 

Transida de susto por êsse sorriso, a môça inclinou-se para sua companheira e murmuroulhe ao ouvido: 

— Arnaldo! 

— Aonde? perguntou Flor distraída. 

— Não ouve? 

D. Flor aplicou o ouvido. Também ela conhecia os módulos frementes daquela voz, que enchia o deserto. 

— E agora? continuou Alina palpitante. Se êle vem?… O sr. capitão-mór!… 

— Meu pai o castigará, Alina; e será um benefício para êle, que está se perdendo. Arnaldo já não é criança; carece emendar-se. 

Alina retraiu-se como uma sensitiva. Esperava achar proteção em D. Flor; e a severidade da donzela, que bem revelava neste incidente a contrariedade de seu humor, a desanimou. 

Nas outras pessoas o aboiar, que se aproximava cada vez mais, não causara a menor impressão, como coisa muito comum no sertão. Apenas alguns dos agregados e vaqueiros lembraram-se que era êsse o modo de cantar de Arnaldo; e viram que antes deles já o gado havia reconhecido o filho de seu antigo vaqueiro. 

De repente uns gritos no curral chamaram para alí a atenção. Voltou-se o capitão-mór, e inquiriu do Agrela com o olhar a causa do rumor. 

— É a Bonina que apareceu, disse o ajudante apontando para a novilha parada junto à cêrca. 

O capitão-mór para alí encaminhou-se tão satisfeito que alterou a sua habitual circunspecção. D. Flor, porém, tinha-se adiantado com Alina e já abraçava a ingrata, quando o pai aproximou-se. 

Indagou o fazendeiro do caso; e Inácio Góis, insinuando-se como o descobridor da Bonina, começara uma história em que se derramaria sua habitual loquela, quando D. Flor o atalhou:

— Alí está quem a trouxe, meu pai! 

O capitão-mór ergueu os olhos na direção indicada pela filha, e viu parado a pequena distância Arnaldo montado no cardão. O mancebo tirou o chapéu e ficou imóvel. 

O ânimo de quantos assistiam a esta cena estava suspenso no pressentimento de um novo e terrível assomo de cólera da parte do fazendeiro. Entretanto o mancebo aguardava tranquilamente o choque, embora o olhar e atitude indicassem a resolução em que estava de não ceder. 

A fisionomia do capitão-mór conservava sua habitual seriedade. A surpresa que a animara um instante, cedera à concentração da vontade sempre morosa e tolhida, quando não a arrebatava a paixão. 

Tendo demorado por algum tempo o olhar no semblante do mancebo, retirou-o afinal para volvê-lo na direção do Agrela. Êste, porém, que previra o movimento, simulou uma distração a propósito e esquivou-se à consulta. 

Então o capitão-mór revestiu-se de toda a solenidade de aparato e estendeu majestosamente a mão para Arnaldo, o qual apeando-se pronto veio beijá-la comovido. 

— Vá tomar a benção à sua mãe, disse o fazendeiro paternalmente. 

Depois que a filha satisfez-se de acariciar a ingrata Bonina, o capitão-mór, passando a título de recomendação um novo capelo no Inácio Góis, tornou à casa acompanhado pela família. 

D. Flor dirigiu-se pressurosa a seu camarim; e tomando alí um objeto que procurava, saiu com Alina em busca do casalinho da Justa. 

Era noite já. O crescente da lua que surgia no horizonte azul esparzia sôbre a terra uma claridade tênue e indecisa que flutuava na atmosfera como gaze finíssima, tecida de fios de prata. 

Além, no terreiro dos agregados, trilavam os sons cristalinos da viola, a ralhar no meio do susurro da conversa. Mais longe, em frente às casas dos vaqueiros, a gente de curral fazia o serão ao relento, deitada sôbre os couros, que serviam de esteiras. 

Uma voz cheia cantava com sentimento as primeiras estâncias do Boi Espácio, trova de 

algum bardo sertanejo daquele tempo, já então muito propalada por toda a ribeira do São Francisco, e ainda há poucos anos tão popular nos sertões do Ceará. 

 

(continua...)

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