Por José de Alencar (1857)
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formam o livro da criação; é a flor, o céu, a luz, a cor, o ar, o sol; sublimes coisas que a natureza fez sorrindo.
A sua frase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; às vezes se eleva ao cimo da montanha, outras desce e rasteja como o inseto, sutil, delicada e mimosa.
Eis o que a decoração da cena majestosa, no meio da qual se achava, à beira do Paquequer, disse a Álvaro, mas rapidamente, por uma dessas impressões que se projetam no espírito como a luz no espaço.
O moço recebeu a confissão ingênua do índio sem o mínimo sentimento hostil; ao contrário apreciava a dedicação que o selvagem tinha por Cecília, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
— Assim, disse Álvaro sorrindo, tu só me amas por que pensas que Cecília me quer? disse o moço.
— Peri só ama o que a senhora ama; porque só ama a senhora neste mundo: por ela deixou sua mãe, seus irmãos e a terra onde nasceu.
— Mas se Cecília não me quisesse como julgas?
— Peri faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te ver.
— E se eu não amasse a Cecília?
— Impossível!
— Quem sabe? disse o moço sorrindo.
— Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o índio cuja pupila irradiou.
— Sim? o que farias?
— Peri te mataria.
A firmeza com que eram ditas estas palavras não deixava a menor duvida sobre a sua realidade; entretanto Álvaro apertou a mão do índio com efusão.
Peri temeu ofender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe com um tom comovido:
— Escuta, Peri é filho do sol; e renegava o sol se ele queimasse a pele alva de Ceci. Peri ama o vento; e odiava o vento se ele arrancasse um cabelo de ouro de Ceci. Peri gosta de ver o céu; e não levantava a vista, se ele fosse mais azul do que os olhos de Ceci.
— Compreendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira à felicidade dessa menina. Não receies que te ofenda nunca na pessoa dela. Sabes se eu a amo; e não te zangues, Peri, se disser que a tua dedicação não é maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecília infeliz.
— Tu és bom; Peri quer que a senhora te ame.
O índio contou então a Álvaro o que se tinha passado na noite antecedente; o moço empalideceu de cólera, e quis voltar em busca do italiano; desta vez não lhe perdoara.
— Deixa! disse o índio Ceci teria medo; Peri vai endireitar isto.
Os dois tinham chegado perto da casa e iam entrar a cerca do vale, quando Peri segurou o braço de Álvaro:
— O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Peri morrer, manda dizer à sua mãe, e veras todos os guerreiros da tribo chegarem para combaterem contigo, e salvarem Ceci.
— Mas quem é o inimigo da casa?
— Queres saber?
— Decerto; como hei de combatê-lo?
— Tu saberás.
Álvaro quis insistir; mas o índio não lhe deu tempo; meteu-se de novo pelo mato; enquanto o moço subia a escada, ele fazia uma volta ao redor da casa e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecília.
Já tinha avistado ao longe a janela, quando debaixo de uma ramagem surdiu a figura magra e esguia de Aires Gomes, coberta de urtigas e ervas-de-passarinho, e deitando os bofes pela boca.
O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito galho desajeitado, foi de narizes ao chão, e estendeu-se maciamente sobre a relva.
Apesar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovelos, e gritou com toda a força dos pulmões:
— Olá! mestre bugre!... D. Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve cá!
Peri não se voltou.
VII
NO PRECIPÍCIO
Peri tinha parado para ver Cecília de longe.
Aires Gomes ergueu-se, correu para o índio e deitou-lhe a mão ao braço.
— Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deu-me água pela barba!... disse o escudeiro resfolgando.
— Deixa! respondeu o índio sem se mover.
— Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mataria toda à tua procura! Tinha que ver!
Com efeito, D. Lauriana desejando ver o índio fora de casa quanto antes, havia expedido o escudeiro em busca de Peri, para trazê-lo à presença de D. Antônio de Matiz.
Aires Gomes, fiel executor das ordens de seus amos, corria o mato havia boas duas horas; todos os incidentes cômicos, possíveis ou imagináveis, tinham-se como que de propósito colocado em seu caminho.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.