Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Ele, que de ninguém as confia.
– Diabo! é nessa: tem um segredo no fundo da primeira gaveta do lado esquerdo.
– Lembro-me bem.
– E então que fazes?...
– Que faço! o que tu farias: espero.
– Esperar é quase sempre o maior de todos os castigos.
– E que remédio, Rodrigues? a carteira está em seu quarto de dormir, e ele quando sai leva sempre a chave; parece que esconde ali um grande tesouro.
– Não se engana; mas hás de roubá-lo.
– Esperemos.
– Calaram-se por alguns momentos os dois velhos. Estiveram ambos pensando, e depois disse Rodrigues:
– Ora dize, João, não parecemos dois decididos inimigos do tal sujeito?
– Às vezes quer me parecer que sim: pelo menos praticamos como tais.
– Não... não... isso não: ouve; se fosse preciso, eu dera o resto de minha vida para fazê-lo verdadeiramente feliz.
– Às vezes quase que não merece nada. Foi, e será sempre desenfreado extravagante.
– O seu fundo porém é bom. Sucede de ordinário assim com todos os extravagantes.
– Pode ser que tenhas razão.
– Ultimamente não se tem portado tão loucamente, como dantes.
– Descansa para recomeçar.
– Basta. É tempo de nos irmos.
– Quando nos veremos outra vez?
– Amanhã não pode ser: há reunião extraordinária no “Céu cor-de-rosa”; faz anos a “Bela Órfã”.
– Seja depois de amanhã.
– Pois bem: depois de amanhã; adeus.
Separaram-se os dois velhos. João sumiu-se voltando o canto da rua da Ajuda. Rodrigues atravessou os mesmos largos e ruas por onde tinha vindo, e entrou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”.
Jacó, desesperado e furioso por não ter podido conseguir apanhar uma única frase da longa conversação dos dois velhos, voltou para sua casa em um verdadeiro estado da ebulição.
– Então, exclamou Helena apenas o viu entrar; que foi fazer o coruja?...
– Encontrar-se na portaria do convento da Ajuda com outro coruja, como ele, e com quem falou mais de uma hora. – Sobre quê, meu caro Jacó?...
– São dois monstros, dois sicários, dois demônios...
– Então...
– Eu não pude ouvir nada; falaram em segredo; respondeu Jacó desatando profundíssimo suspiro.
Oh! malvados!... exclamou Helena.
E naquela noite os vizinhos de Jacó e de Helena foram mais que nunca vítimas da mordacidade, das calúnias desse par sem igual.
CAPÍTULO XVIII
A NOITE DE ANOS
ERA A NOITE dos anos da “Bela Órfã”; noite de festa no “Céu cor-de-rosa”, e que deveria ser de inocentes gozos para os numerosos convidados, que enchiam aquela feliz habitação.
Além da casa, que estava toda brilhante de luzes, o jardim tão querido de Celina achava-se também iluminado, e patente àqueles que quisessem aí passear.
Não havia certamente no “Céu cor-de-rosa” o luxo deslumbrante das festas dos milionários, que gastam; em compensação, porém, o bom gosto transpirava em tudo.
Mariana ostentava sua beleza tão especial, tão deslumbradora, tão perigosa.
Celina, que era como a princesa da festa, levava, sem querer, sem pensar, vantagem sobre a bela tia.
Uma simplicidade feiticeira presidira, como sempre, o seu toucador. Seus longos cabelos estavam atados com graça indizível, mas tão pouco trabalho pedia aquele penteado, que adivinhava-se para logo que era o resultado da destreza de suas mãozinhas; agradava ainda mais por isso. Um pouco para o lado esquerdo de sua cabeça, aparecia um botãozinho de rosa, como surgindo dentre as tranças de madeixas.
Seu vestido era o único que lhe convinha.
Uma virgem pede um vestido branco. A cor branca exprime a alvura de sua alma, a inocência de seu coração. Qualquer outro vestido assenta mal numa virgem.
Além disto, uns sapatinhos de cetim, e mais nada. Para que quer enfeites a formosa donzela?... para que, se a natureza se incumbe de enfeitá-la com os mais interessantes adornos?...
Tudo na “Bela Órfã” respirava encanto, graça, candura e inocência: era um anjo.
Não há sacrilégio nesta comparação.
Quando a mulher reúne às graças físicas, virtudes cristãs, pureza e bondade, pode por um homem ser comparada a uma santa ou a um anjo.
A uma santa, em qualquer tempo, em qualquer condição, que esteja essa mulher; mas contanto que reúna os encantos de espírito que há pouco foram apontados.
A um anjo, porém, somente enquanto é virgem; porque só então na mulher transpira essa inocência que é por força vinda do céu; essa inefável pureza que não pode existir senão nos anjos e na virgem.
Os anjos são as virgens do céu, como as virgens são os anjos da terra.
Mas Celina tinha naquela noite um não sei quê de mais belo, de mais interessante em si, em seus modos, em seus olhares. Era um receio que se não compreendia, um pudor como nunca suscetível...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.