Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Recorda-se, sim, todos aqueles eloqüentes obséquios, aquelas palavras de sentido obscuro para todos e bem claro para só ela que as ouviu, e que as recorda!... recorda-se, sim, o mancebo daquela interessante senhora... toda graças... toda espírito, que lhe arrastava o coração e os olhos, quando valsava; que lhe prendia a alma inteira nos ouvidos quando lhe falava... recorda-se com saudade... mais do que com saudade de um simples, pode ser... de um doce talvez... murmurado com os lábios quase cerrados, e que ainda assim soa tão ternamente no coração; um doce talvez!... palavra mágica! primeiro elo dos amantes! fonte das primeiras esperanças! talvez... expressão sublime... tão sublime no princípio de um amor nascente, como só o é no fim dele o eu vos amo! da mulher que se adora; recorda-se mesmo com interesse de um duvidoso, quem sabe?... de um triste, não sei; apesar de toda a sua bárbara frialdade!...
E sonha-se também, oh! sonha-se muito! e ainda com o mesmo pobre mancebo, que a seguiu inutilmente toda a noite... sonha-se com o seu olhar de fogo que, embebido nos olhos dela, pareceu querer penetrar até sua alma para lá plantar o sentimento que dardejava!... sonha-se com o sorriso angélico da encantadora moça, que lhe deu uma inocente flor... sonha-se com aquele suspiro que se apanhou descuidado... com aquele pé, em que se tocou por acaso... com aquele colo de alabastro, onde dois tesouros se deixavam adivinhar tão belos!...
— Leva remos!... disse o jovem patrão; porque chegavam à praia.
O batel arrastou seu bojo sobre a areia, e, quando a prancha caiu, o marinheiro despertou a Hugo de Mendonça e a Honorina com a menor rudeza que pôde.
— Chegamos, disse ele.
— Bem... bem... obrigado... saltemos, Honorina.
Honorina ergueu-se e procurava as luvas, que havia posto sobre o banco.
— Eis aqui uma, senhora, o vento a ia lançando ao mar, enquanto a senhora dormia... foi por isso que parou em minhas mãos.
— Obrigada, respondeu a moça, a outra tenho cá eu.
Mas, no momento de calçá-las, Honorina olhou com surpresa para o jovem marinheiro, que ao pé dela se mostrava triste e submisso.
Hugo e Honorina desembarcaram; e o patrão, que recebeu o seu dinheiro, os viu partir.
Que a luva estava nas mãos do marinheiro, Honorina o sabia quando parecia procurá-la no banco; porque ela, fingindo dormir, velara durante toda a viagem e vira tudo quanto se tinha passado no batel.
Primeiro, ela notou que o batel um instante se desgovernara... ou talvez seguia rumo diverso do que devera seguir, e o jovem patrão, que tão sabido se jactara de pilotagem, chamou a um dos remeiros e por algum tempo lhe entregou o leme.
Depois ela sentiu que, quando o batel se achou defronte da barra, o vento refrescou, e foi então que, uma de suas luvas, levantada por ele, teria com efeito caído no mar, se o jovem marinheiro a não tivesse tomado.
Enfim, ela reparou também que ele em lugar de tornar a pôr a luva onde estava, beijou-a muitas vezes... deu-lhe mil voltas, e por último guardou-a junto do coração.
Receosa ainda do que vira, supondo aquele homem tão rude... tão mal-educado, ousado demais por interessar-se tanto por um simples objeto, que lhe pertencia, e não querendo por isso deixá-lo em suas mãos, Honorina fingiu procurar a luva, que lhe faltava no banco, onde a tinha posto.
Quando a recebeu das mãos do marinheiro... ela a achou quente ainda do calor daquele peito grosseiro; apesar disso, querendo calçá-la, fez um movimento de surpresa, porque dentro da luva estava alguma coisa demais... guardou silêncio então, por temer que seu pai pudesse ter uma disputa com um homem tão selvagem; e, fingindo nada haver percebido, partiu com as mãos nuas.
Depois ela poderia falar, e dizer a seu pai quanto se passara; mas Honorina pensou que iria afligir o seu bom velho; além de que não deixava de sentir alguma curiosidade de saber o que continha a luva.
Com tais pensamentos chegou a casa. Ema os esperava cuidadosa; recebeu nos braços a querida neta, a quem achou mais pálida e por demais fatigada; graças talvez a isso, foi-lhe para logo permitido retirar-se para seu quarto em companhia da boa Lúcia.
No entanto, logo que Hugo de Mendonça e sua filha desapareceram aos olhos do jovem marinheiro, este fez certo sinal a um dos remeiros que, imediatamente, apertando o lábio inferior, soltou três assobios.
Alguns minutos depois um velho, cujos vestidos em tudo se pareciam com os do moço patrão, chegou-se para este.
— Então, meu cavalheiro, disse o velho.
— Aqui está o seu dinheiro, patrão, respondeu o moço, três mil-réis, que deveria receber dos seus passageiros, e o dobro dessa quantia que lhe prometi.
— Obrigado, senhor... senhor... ah! é verdade que ainda me não disse a sua graça.
— Nem creio que seja preciso dizê-la: não entrou isso no nosso ajuste.
— Também foi só por perguntar... eu cá não sou curioso; mas conte-me, como se houve... o certo é que o mar esteve de rosas...
— Todavia desgovernei uma vez... vi-me doido entre os navios... e a maldita voz de bronze, que me foi preciso fingir!... enfim, está passado; agora pertence-lhe o resto; o senhor jurou-me não dizer palavra.
— Pode ficar perto, que eu cá para isso sou um poço.
— Otimamente. E pretende ir dormir?...
— Quando está para amanhecer, senhor?...
— Tanto melhor; dentro de uma hora parto para a corte; quer levar-me?
— Sem dúvida.
— Bem; eu volto imediatamente.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.