Por Camilo Castelo Branco (1869)
― O senhor doutor!... beijo-lhe as mãos. E poderei chamar um escudeiro que me trata há muitos anos?
― Pois não! Esperarei vossa excelência, a menos que me não dê ordem de o acompanhar desde aqui...
― Não senhor – atalhou o fidalgo flaviense – eu acompanharei o meu amigo.
― Recebo as ordens de vossas excelências – disse Francisco José da Costa, e saiu.
― Este homem pareceu-me extraordinário! – considerou o conde. – Tem uns ares altivos, não tem?
― E mais vossa excelência não lhe viu a gravidade imponente do rosto! As maneiras são de boa sociedade, e o olhar tem uma penetração de águia. Eu estava a gostar de o ouvir.
― Também eu! Muito lhe devo, meu amigo! De mais a mais deu-me um operador simpático, com uma família que me há de aligeirar as horas? Muito lhe devo!
Entrou com tranqüila aparência o cirurgião em casa.
― Que tinha o conde? – perguntou Ângela.
― É cego, filha.
― Oh, coitado! E cura-se?
― Cura.
― Deus o permita. Vais operá-lo?
― Vem ele aqui operar-se.
Às Boticas?
A nossa casa.
― O conde vem para aqui!... Ai que casa esta!...
― Não te disse que ele é cego, menina?
― E que quarto lhe dás?
― O nosso.
― Então seja o meu – disse Joana.
― O nosso é melhor – tornou Francisco. – Cedes o teu quarto ao conde, Ângela?
― Pois sim, meu amor. Ele que homem é?
― Tem setenta anos.
― Tão velhinho! E vais operá-lo?
― Vou.
― De onde é ele?
― Veio de Ponte do Lima.
― De Ponte do Lima? De que família?
― Dos Noronhas Barbosas.
― Então é meu parente.
― É; é muito teu parente; é teu pai.
― Meu pai?!... Estás brincando, Francisco?
― O cego conde de Gondar que vem para tua casa é teu pai, Ângela: é o general Simão de Noronha.
― E ele sabe?... – exclamou Ângela, ofegante. – ele sabe...
― Para onde vem? Não nem quero que saiba depois que estiver cá. Desde que ele entrar, tu perdes o teu nome, e chamas-te?... como hás de chamar-te? Maria. Se sentires expansões de filha, hás de reprimi-las. pede-to o teu plebeu, o filho do sacristão honradíssimo que amou seus filhos com ternura, e se apartou deles prometendo-lhes vigiá-los do céu. O conde de Gondar aqui dentro é um doente que se trata. De comum entre nós há apenas operado e operador. Tu és a esposa de um, e a filha repulsa e abandonada do outro. Que te diz o coração, Ângela?
― Que ele é meu pai... e mais desgraçado que eu...
― Pois compadece-te, ama-o, mas não me impeças o restituir-lhe a vista. Quando ele te vir, há de ser tarde; mas podes vê-lo e falar-lhe contanto que imediatamente à operação, e mudados os apósitos, ele te não veja.
― Mas, logo que me veja, é provável que me reconheça...
― Se assim for, a tua dignidade te aconselhará. Sobretudo, é preciso que atendas aos créditos do cirurgião. Se sobrevierem febres em resultado de comoções violentas, perderei o prazer de mostrar ao conde de Gondar uma família feliz sem brasão no portal nem ouro nas arcas. Quando o conde souber em casa de quem está, desejo muito que a senhora de casa se faça tão-somente conhecer por filha de D. Maria d’Antas.
De onde se prova que as singulares utopias no amor dos dezoito anos semelhavam muito em Francisco Costa, aos trinta e três anos, umas singulares utopias de dignidade humana.
XXVIII CONFIDÊNCIAS DO CEGO
Batia alvoroçado o coração de Ângela quando ao longe tilintava a guisalhada da liteira, em que entrava nas Boticas o conde de Gondar. Joana e Vitorina, pasmadas da casualidade, faziam considerações muito religiosas sobre o caso.
Francisco saíra à extrema da aldeia para guiar o liteireiro. O cego, sabendo que o doutor o viera esperar, mandou parar o veículo, para apertar a mão do “segundo criador da sua luz”, dizia ele.
Caminhou Costa de par com a portinhola, e tomou o velho nos braços, quando a liteira parou ao portão do quinteiro.
Ângela e as outras espreitavam das janelas. Vitorina benzia-se, murmurando:
― Ai! Como ele está acabadinho! Quem viu este senhor há quarenta anos!
Ângela retraiu-se da janela para limpar as lágrimas.
Subiu o conde pelo braço de Francisco os poucos degraus que levavam do quinteiro à saleta destinada.
A melhor alfaia de assento era uma preguiceira almofadada a toda a presa por Ângela e Joana com um colchãozinho de lã e chita escarlate, e dois travesseiros com suas fronhas de folhos engomados.
Queira vossa excelência sentar-se, e reclinar-se, senhor conde – disse o facultativo. – Convir-lhe-ia melhor uma poltrona; mas não a tenho.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.