Por Lima Barreto (1922)
Além disto, introduzindo hábitos teatrais no viver guerreiro, iria isso perturbar a ação dos combatentes, diminuir-lhes a eficiência com a suposição de que deviam tomar belas atitudes, para obter o aplauso da galeria, distraindo-lhes do verdadeiro objetivo de sua ação que é dar cabo do inimigo, por fas ou nefas.
Esse sistema de academia de beleza não pode ser adotado, sendo essa também a conclusão a que chega, depois de exaustiva análise, o grande filósofo dinamarquês que nos guia nestas despretensiosas notas.
Resta o método científico que se estriba na psicologia experimental e é corrigido pela sociologia transcendente.
Não posso transcrever aqui todas as considerações que precedem a exposição que o Senhor Hans Reykavyk faz desse método.
Bastará dizer-lhes que, depois de expor fatos concretos em abundância, ele estabelece o postulado de que o general deve ser moço; de menos de trinta anos, pois é nessa idade que os homens têm o máximo de iniciativa.
Saído das escolas militares o oficial será logo general, ganhando como tenente, depois irá descendo de graduação de forma a chegar aos sessenta como tenente, ganhando como general.
Eis em linhas gerais o plano de rejuvenescimento dos quadros de oficiais militares, a que chega o ilustre Reykavyk, após uma análise detalhada das conclusões da psicologia experimental, convenientemente corrigidas pela sociologia transcendente.
Além de outras vantagens, tem este método a de fazer que os tenentes deixem, por morte, para as viúvas, filhos, filhas, genros e netos um montepio que porá estes a coberto de todas as necessidades — montepio de general.
Pelo seu caráter geral e abstrato, com as necessárias modificações, ele pode aplicar-se, não só a todas as corporações militares, como também a quaisquer outras civis, estipendiadas pelo governo.
Não é preciso mais dizer, a fim de pôr em evidência o grande alcance do sistema do pensador dinamarquês e chamar para ele a atenção do legislativo brasileiro.
Creio que, fazendo isso, cumpro um dos deveres da missão militar de que me acho incumbido no Brasil.
Capitão Ortiz y Valdueza, do corpo de Submarinos dos Estados Unidos da Bruzundanga.
Pela tradução do "bengali". — Lima Barreto — (Tradutor público ad-hoc).
Careta, Rio, 19-3-1921.
No salão da marquesa
Na República da Bruzundanga, nunca houve grande gosto pelas cousas de espírito. A atividade espiritual daquelas terras se limita a uns doutorados de sabedoria equívoca; entretanto, alguns espíritos daquele Fonkim se esforçavam por dar um verniz esperitual à sociedade da terra. Escreviam livros e folhetos, revistas e revistecas de modo que, artificialmente, o país tinha uma certa atividade espiritual.
Notavam todos a falta de salas literárias, de salões espirituais, tais aqueles que tanto brilho deram ao século XVIII francês, revelando não só grandes escritores e filósofos, mas também espíritos femininos que, pela sua graça, pelo seu talento de penetração, muito distinguiram o sexo amável, antes desse feminismo truculento e burocrático que anda por aí.
Consciente desta falta, a Marquesa de Borós, uma senhora de alta estirpe e não menos alta inteligência, tomou o alvitre de fundar um salão literário.
Ela residia em um grande palácio que se dependurava sobre a cidade capital, do alto de uma verdejante colina, e nele em certas e determinadas tardes reunia os intelectuais do país.
Em começo, recebeu alguns de valia; mas, bem depressa, os fariseus e simuladores de talento tomaram conta da sala.
A sua delicadeza e a sua bondade se vira obrigada a receber toda essa chusma de mediocridades que, sem ter talento nem vocação, se julgam literatos e artistas, como se tratasse de condecorações e títulos fornecidos pelo presidente da República do Cunany.
A esse pessoal, acompanhou o equivalente feminino; e era de ver como Cathos fazia pendant ao farmacêutico Homais; Madelon ao gramático Vaugelas; e Filaminta ao artista Pèlerin.
Uma sociedade, ou antes: este salão começou a dominar a atividade espiritual do país; e não havia recompensa do esforço intelectual em que ele não se metesse e até pusesse o seu veto.
O parecer dele era sempre sobremodo néscio e tolo.
Para uns, ele opinava:
— O Jagodes receber prêmio — qual! Um filho natural! Não é possível!
Para outros, ele sentenciava:
— Não julgo o Fagundes digno de figurar no Grêmio Literário Nacional... Ele não bebe champagne!
A propósito destoutro, ele dogmatizava:
— O Bustamante não pode receber a medalha. É verdade que ele tem merecimento; mas veste-se muito mal...
Essa opinião acabava de ser
pronunciada pelo ilustre literato Manuel das Regras, cuja obra por ser
desconhecida era de alto valor, quando, num canto da sala, foi visto um sujeito
mal vestido, relaxado, sujo mesmo, com um todo de homem de outros tempos.
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.