Por Lima Barreto (1911)
— O que nos falta é o frio. Ah! A sua Rússia! Eu se quero ser sempre ativo, tomo todo o dia um banho de frio. Sabe como? Tenho em casa uma câmara frigorífica, 8 graus abaixo de zero, onde me meto todas as manhãs. Precisamos de atividade e só o frio nos pode dar. Penso em instalar grandes câmaras frigoríficas nas escolas, para dar atividade aos nossos rapazes. O frio é o elemento essencial às civilizações... Mas, emendou a alta autoridade, ainda não lhe falei sobre seus planos. Macieira fala-me aqui das suas idéias sobre a pecuária. Quais são?
— São simples. Por meio de uma alimentação adequada consigo porcos do tamanho de bois e bois do tamanho de elefantes.
— Como? Mas, como Doutor?!
— Os meus processos são baseados na bioquímica e já foram experimentados alhures. O grande químico e fisiologista inglês Wells escreveu algo a respeito. Não conhece?
— Não.
— H. G. Wells, uma grande sábio inglês de reputação universal, cujas obras estão revolucionando a ciência.
— Não tenho notícia... É uma falha... O senhor tem livros dele?
— Tenho.
— Há de mos emprestar. Mas... de forma que boi dos seus, é?
— São quatro, Excelência. Veja só Vossa Excelência que vantagem não
traz.
— Magnífico! É um portento o seu método de criar. E o tempo de crescimento, Doutor? — O comum.
— É uma maravilha. No mesmo tempo, com um mesmo animal, o senhor obtém efetivamente quatro?
— É verdade.
— Quatro! Estás ouvindo, Nascimento?
O secretário respondeu ao Ministro e continuou mergulhado no expediente. O oficial tinha partido. Um contínuo veio dizer-lhe qualquer coisa. O ministro mandou-o ao secretário.
— Doutor, o senhor é verdadeiramente mágico. Por que não me disse isto há mais tempo?
— Já lhe havia dito na casa do senador Neves Cogominho.
— Ah! É verdade!
— Não se cifram nisso, Excelência, as vantagens dos meus métodos.
— Ainda tem outros?
— Tenho, como não?
— Quais?
— Ainda consigo a completa extração dos ossos do meu gado.
— Completa?
— É um modo de dizer. Reduzo-os ao mínimo, quando chegar a época da matança, e os transformo em carne no animal vivo.
— Que gado lhe serve?
— Qualquer! Suíço, francês, inglês... Não faço questão; o essencial é haver boi.
— E os porcos?
— Também! Qualquer!
— Extraordinário! Estás ouvindo, Nascimento? — gritou para o secretário.
O acolhimento que dispensou aos seus projetos o excelentíssimo senhor ministro do Fomento Nacional, animou o russo a improvisar novos processos que levantassem a pecuária no Brasil. Xandu, com o cotovelo direito sobre a mesa e a mão respectiva na testa, considerava Bogoloff com espanto e enternecido agradecimento.
— Ah! Doutor! — disse ele. — O senhor vai dar uma glória imortal ao meu ministério.
— Tudo isso, Excelência, é fruto de longos e acurados estudos.
Xandu continuava a olhar embevecido o russo admirável; e este aduziu com toda convicção.
— Por meio da fecundação artificial, Excelência, injetando germes de uma em outra espécie, consigo cabritos que são ao mesmo tempo carneiros e porcos que são cabritos ou carneiros, à vontade.
Xandu mudou de posição, recostou-se na cadeira; e, brincando com o monóculo, disse:
— Singular! O Doutor vai fazer uma revolução nos métodos de criar! Não haverá objeções quanto à possibilidade, à viabilidade?
— Nenhuma, Excelência. Lido com as últimas descobertas da ciência e a ciência é infalível.
— Vai ser uma revolução!...
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.