Por Aluísio Azevedo (1895)
- Não sei; amo-te, e nós, as mulheres, quando amamos deveras, somos capazes de tudo! - Pois se é capaz de tudo, veja se consegue deixar-me em paz!
- Menos isso!
- Pois, olha, filha, custa-me a confessar, mas acredite que estou em uma tal situação que não me é possível absolutamente pensar em mulheres. Não imagina! Acho-me com a vida muito atrapalhada; falta-me tempo para tudo; os dias fogem-me por entre os dedos como se fossem minutos. Se a senhora é minha felicidade, não queira ser a primeira a criar-me novos obstáculos. Já tenho tantos!
- Não! Quero apenas saber se amas a uma outra mulher.
- Não! já lhe disse que não, e acrescento que se não amo, é porque não posso, é porque não tenho jeito, não tenho tempo, e é porque agora me faltam recursos para isso! Está satisfeita?
- Pois, se não amas a outra, juro-te que hei de, A força de dedicação, fazer-me amada por ti! Verás!
- Aconselho-lhe que não tente semelhante coisa! Perderia o seu tempo! O que não falta por aí são rapazes em muito melhores circunstâncias do que eu. Experimente e verá!
- Mas se só a ti desejo e amo? Se ninguém é belo, forte, inteligente como tu?
- Sempre a mesma cantiga! exclamou Teobaldo. Malditos dotes! Afinal, preferia ser mais feio do que o Coruja!
- Não blasfemes!
- Qual blasfemes, nem qual histórias! Quer saber de uma coisa? Errou a pontaria. Veio buscar amor? Pois bem - não há!
E, passeando de um lado para outro furioso:
- Oh! oh! é demais! Não tenho obrigação nenhuma de aturar isto! Apre!
Ernestina defronte daquele transbordamento de cólera, principiou a soluçar, dizendo que era a mais desgraçada das mulheres; que amava um homem que a tratava daquele modo, e, enfim, que - se Teobaldo não estivesse disposto a ser mais generoso, ela daria cabo da vida.
- Faça o que entender, minha senhora!
- Tu serás a causa. de minha desgraça!
- Paciência!
- Malvado!
- Não acho! A senhora é infeliz porque me ama; não me amasse!
Ela então lançou-lhe os braços em volta do pescoço e abriu a dizer entre beijos:
- Não! não é possível que sejas tão mau! Sei que dizes tudo isso para me experimentar!
Amo-te, adoro-te! Estou disposta a afrontar tudo!
Teobaldo desembaraçou-se das mãos dela grosseiramente, foi buscar o chapéu, enterrou-o na cabeça e saiu, dando-se aos diabos.
A pobre rapariga, depois do esforço que fizera para dete-lo, deu ainda alguns passos, muito ofegante, até à porta e afinal caiu sem sentidos. Esta crise era promovida pelo despeito e em grande parte pela ausência do jantar.
Coruja, que no seu quarto aprontava com pressa um trabalho para o dia seguinte, ouviulhe o baque da queda e correu a socorre-la.
- Que significa isto? perguntou ele, erguendo-a do chão e indo depo-la sobre a cama de Teobaldo, que ficava na alcova próxima.
- Fugiu-me! disse a infeliz, abrindo os olhos e soluçando com mais ânsia; - fugiu-me, depois de dizer que não me amava e que nunca me amaria!
- Pois ele disse isso!... murmurou André, sem saber o que devia fazer, muito perturbado com aquelas lágrimas e com aquele desespero.
- É um ingrato! É um homem mau! exclamava ela nas curtas intermitências do choro. É um malvado.
- Veja se consegue ficar tranqüila... aconselhava o professor a acarinhá-la. Faça por isso...
E, com uma idéia:
- Mas, agora reparo, a senhora está aqui há um bom par de horas e naturalmente precisa comer. Vou arranjar-lhe qualquer coisa.
- Não se incomode.
- É que por essa forma a senhora ficará pior. Vamos, procure tranqüilizar-se enquanto lhe arranjo a ceia.
Ela aceitou afinal e o Coruja afastou-se.
No fim de um quarto de hora voltava ele com uma bandeja nos braços.
- Veja se consegue sempre meter alguma coisa no estômago, dizia a arranjar a mesa; eu lhe farei companhia. Vamos.
Ernestina arrastou-se ainda muito chorosa até à mesa e, entre suspiros, principiou a comer. O Coruja ao seu lado desfazia-se em solicitudes, sem aliás conseguir animá-la. - Oh! mas é que dói muito semelhante ingratidão! exclamava ela com a boca cheia. Um rapaz, por quem eu seria capaz de dar a vida, tratar-me deste modo, dizer-me cara a cara o que me disse e, afinal, sair como saiu, desprezando-me, nem que se eu fosse um cão tinhoso!
- É que ele estava hoje de mau humor, coitado! arriscou André. Há de ver que amanhã já a tratará de outro modo...
- Qual! amanhã fará pior; tola fui eu em mostrar-me apaixonada Ingrato!
O professor empregou ainda alguns esforços para tranqüilizá-la e depois confessou que estava muito atrapalhado de serviço e precisava continuá-lo.
- Não me posso descuidar um instante, acrescentou. É um trabalho com pressa. Olhe, a senhora fique a seu gosto, está em sua casa, se precisar de qualquer coisa é só chamar por mim. Com licença. Até logo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.