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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— É exato, respondeu o outro, nadando em contentamento.

— Estás que nem te podes lamber de contente.

E com um ar mais sério:

— Que tal é ela?...

— Para mim — a mais bela das mulheres!

— É conhecida por cá?...

— Não!

— Então chegou há pouco?...

— Qual! é daqui mesmo. É rapariga de família...

— Ah! exclamou o outro com um vislumbre; é a Ambrosina!

Gabriel olhou­o de frente:

— Como sabe?!...

— Ora, que pergunta! Uma vez que é de família e vai morar contigo, não pode ser outra.

E, fitando o banco fronteiro da carruagem:

— Sim senhor! boa mulher! Parabéns!

Daí a pouco, Gabriel passava às mãos do Melo todo o dinheiro que preventivamente trouxera consigo; e dentro de algumas horas principiavam já as andorinhas a conduzir os primeiros móveis para a futura residência dos dois amantes. Melo Rosa mostrava­se de uma solicitude admirável; tinha grande prática daquele serviço, e sabia onde se vendiam as mais caprichosas fantasias para uma instalação de amor caro.

Depois de fazer compras e encomendas, muniu­se de três homens e meteu­se na casa a trabalhar. Pôsse logo em mangas de camisa e a dar ordens para a direita e para a esquerda.

— Olha, estouvado! gritava ele a um trabalhador; vê lá como pegas nesse espelho! Olha que isso não é de ferro, bruto! Abaixa! mais ainda! gritava para outro lado. Não machuques essas flores! Cuidado, animal!

E a casa ia já se transformando em uma habitação de prazer e luxo. Era uma chacarazita com seu prédio novo, todo pintadinho e forradinho de fresco. Presta­se maravilhosamente para o fim desejado.

Gabriel acompanhava o serviço com frenético prazer. O diabo era que a casa de saúde em que recolheram Leonardo ficava por ali cerca, e tal vizinhança não produzia bom efeito no ânimo do namorado de Ambrosina.

Às sete horas da noite veio o jantar que Melo encomendara a um hotel, e os dois rapazes, à luz do gás, comeram e beberam intimamente, como se foram velhos camaradas.

Gabriel tornava­se expansivo, palrava com entusiasmo da sua amante; mas pedia reserva ao outro. Era necessário que não se falasse nisso por aí!...

Melo prometia e mostrava­se interessado, como se se tratasse da sua própria felicidade.

Ah! ele haveria de aparecer... Não! que umas certas pândegas queria ele mesmo organizar!

E, todo cheio de intenções, de projetos, de planos de prazer, falava de cousas ruidosas, alegres, retumbantes de riso e champanha. Lembrava no gênero ceias esplêndidas, de grandes orgias, de cuja iniciativa lhe cabia a glória, e citava, com assombro, nomes de famosas mulheres e libertinos célebres do Rio de Janeiro.

Três dias depois, dirigia Gabriel à Ambrosina um bilhete, declarando:

"Está tudo pronto; só falta a tua presença".

E por galanteria, escreveu embaixo: — "Amo­te! Vem!"

XXI

ESPÓLIO DO COMENDADOR

Genoveva, no outro dia, deu por falta da filha.

Ambrosina deixara sobre a cama um cartão seu com as seguintes palavras:

"Se me desejar ver, pode procurar­me nas Laranjeiras, rua tal, n. tal". Dizia o número da casa e o nome da rua.

A pobre mãe esteve por perder a cabeça. Pois seria concebível que Ambrosina lhe fugisse, daquela forma, de casa?!...

Vestiu­se, saiu, tomou um tilburi, e deu ao cocheiro o número indicado.

Veio abrir uma francesa:

— Voulez­vous parler à madame? perguntou esta, Genoveva abaixou os olhos e disse:

— Quero falar à minha filha...

A francesa retirou­se, e voltou logo para abrir a sala.

A viúva do comendador sentiu­se constrangida em meio da opulência arrebicada e impudica daquela instalação; tapetes, móveis, quadros, tinha tudo um certo caráter leviano, certo ar de vida de atriz moça e bonita, que tresandava a escândalo.

Daí a pouco apareceu Ambrosina. Vinha um tanto abatida, porém de bom humor.

— Então o que quer dizer tudo isto?! perguntou­lhe a mãe.

— O que vê!...

— Mas com quem moras aqui?

— Com Gabriel.

— Teu amante!...

— Sim, porque não pode ser meu marido.

— E por que então não te casaste com ele?

— Sei cá! porque me casei com outro! Sabia lá que ali estava um doido furioso?...

— E este rapaz tenciona acompanhar­te sempre?

— Ainda não pensei nisso.

— E se ele te abandonar?

— Que abandone!

— E sabes tu o que isso será?

— Perfeitamente, e não falemos mais em tal. A "senhora ponha­se à vontade; dê­me a sua capa e o seu chapéu. Fica conosco para o almoço, não?

— Não! não posso ficar; não desejo encarar com o teu amante...

— Ainda está dormindo.

(continua...)

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