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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Passarão-se quinze dias, durante os quaes o estado moral e physico de Carlos apresentou algumas melhoras, si bem que a sua paixão nada declinasse de seu primitivo gráo de ardor e exaltaçãe. O desabafo, que tivera com Frederico, lhe fizera bem, e como já tinha um peito amigo, a que confiasse suas maguas e inquietacões, sentia o corração algum tanto alliviado do peso que o opprimia, e o espirito mais calmo para entregar-se ao estudo, e continuou a frequentar as aulas com alguma assiduidade. O vivo desejo, que tinha, de terminar seus estudos para pôr em execução o plano, que formára para libertar sua formosa vizinha, influio talvez mais que tudo para esse lisonjeiro resultado.

Quanto a Frederico, esse tinha desistido completamente de seu proposito de combater a paixão de Carlos, e dizia de si para si, que só depois de dar todas as cabeçadas que pretencia, é que seu amigo poderia tomar rumo. Levado por uma curiosidade mui natural guiz conhecer tambem essa escrava de peregrina formosura, que por tal sorte tinha transtornado a cabeça e captivado a coração de seu amigo. Foi para esse fim á casa do Carlos, o qual não hesitou, antes folgou por ter occasião de proporcionar a seu ami oo um ensejo para ver e admirar o encantador objecto de sua ardente paixão. Esperava que depois de vel-a, Frederico se despojaria de grande parte de sua austeridade, e não estranharia tanto a exaltação de seu amor. De feito Frederico escondido cautelosamente no quarto de Carlos, de modo que pudesse ver sem ser visto, gozou por um quarto de hora o indizivel e platonico prazer de contemplar uma das mais seductoras bellezas que o céo tinha creado, e de presenciar um namoro o mais ingenuo, sentimental e apaixonado, que se póde imaginar, expressado pela mais eloquente e significativa mimica. Aquillo que para os dois amantes era o mais serio episodio do drama do amor, para Frederico tornava-se quasi uma scena comica, e elle teria soltado alli mesmo uma grossa gargalhada, si não o contivesse por um lado a belleza angelica, a graciosa e ingenua figura da moça, e por outro o respeito que devia á affeição profunda e sincera do amigo. Sahio dalli desanimado mais que nunca de poder desviar o amigo de sua louca paixão, e si não deixava de lastimal-o, reconheceo todavia que a menina era com effejto digna desse culto fanatico, dessa fervente adoração que lhe consa orava. Tomando summo interesse não já só pela sorte de Carlos como tambem pela da gentil escrava, que deplorava do fundo d'alma ter nascido naquella condição, Frederico, que era filho de paes opulentos, obededendo aos nobres e philantropicos impulsos de seu coracão, concebeo desde logo a generosa idéa de empregar os meios a seu alcance para conseguir a liberdade da gentil captiva. A principm havia pensado que essa rapariga não seria mais do que uma linda mulata, como ha tantas no Brazil, faceiras e seductoras, e a pintura, que della Carlos lhe havia feito, levava em conta de exagero apaixonado de um homoeque só vê o objecto amado atravez de um prisi ma illusorio, que elimina todos os defeitos, realça as mais comesinhas qualidades. Desde que a via porém, suas idéas se modificárão considêravelmente, e o amor de Carlos, dc que a principio mofára com seu ar de risonha bonhomia, Ihe pareceo plenamente justificado.

De feito, desde que se via a formosa escrava do senhor Bazilio, era preciso um supremo esforço de imaginação para acreditar que era realmente uma escrava. Sua téz branca e delicada, os magníficos cabellos escuros, que Ihe emmolduravão o rosto, e Ihe ondeavão pelo bem torneado collo, as feições correctas e harmoniosamente delineadas, os ademanes naturalmente graciosos e elegantes, accrescendo a tudo isso o encanto da innocencia e candura infantil, não denunciavão por certo a filha da senzala. Ao vel-a, qualquer juraria que era uma donzella distincta, creada com todo o mimo e solicitude entre os carinhos de uma familia honesta, e bafejada desde o berço pelo sopro da liberdade.

Fredrico, impressionado pela rara formosura da menina, já não julgava uma degradação, uma abdicação da propria dignidade desposar uma liberta de tanta belleza e merecimento. Tembem Frederico no intimo de sua consciencia estava bem convencido de que a escravidào é urn accidente do destino, que não constitue uma nodoa, e o facto de casar-se o seu amigo com uma liberta, mórmente sendo dotada de tão vantajosas prendas physicas e moraes, nenhum desar, nem mesmo ridiculo poderia provocar sobre a sua pessoa e reputação, Formou pois generoso, si bem que um pouco excentrico projecto de procurar aplanar o caminho, para que os votos do coração de Carlos fossem satisfeitos. Communicou suas intenções ao amigo, que lh'O agradeceo do intimo d'alma, e dahi em diante creou novo animo e novos incentivos para proseguir em sua arrojada em preza.

(continua...)

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