Por Visconde de Taunay (1872)
Quando Cirino passou por aquelas campinas desabrigadas, abrasado de calor, desanimou completamente do êxito da empresa a que se atirara. Tanta esperança o alvoroçara quando ia seguindo a vereda encoberta e amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que identificado com a disposição de animo do cavaleiro.
—Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquela conversa? Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra a amada do seu coração.
—Maldita a hora em que vi aquela mulher... Seguia eu sossegado o meu rumo... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:
—Perdão, Inocência! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir... deixar-te... mas tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Ana do Paranaíba.
De longe é sumamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal do sertão de Mato Grosso, assenta no abaulado dorso de um outeirozinho. O que lhe dá, porém, encanto particular para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de áureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja matriz.
Transpondo límpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé à direita e à esquerda, chega-se à rua principal, que tem por mais grandioso edifício espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a querer abrigá-la em sua totalidade dos ardores do sol.
É aí que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo, corado.
Na sua loja de fazendas, ao rés-do-chão, reúne-se a melhor gente da localidade, para ouvi-lo dissertar sobre política, ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na corte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos anos de 1838 a 1839.
De vez em quando, naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o tipo melancólico de uma povoação acanhada e em decadência, aparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrai às janelas rostos macilentos de mulheres, ou a porta crianças pálidas das febres do Rio Paranaíba e barrigudas de comerem terra.
Também aos domingos, à hora da missa, por ali cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daqueles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.
Atravessou Cirino a vila, e passando por defronte do senhor Taques saudou-o com a mão, e sem parar.
Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as próprias proezas, que muitas tinha aquele estimável cidadão, senão também as façanhas dos antigos sertanejos, histórias que sabia na ponta da língua.
—Lá vai o doutor, disse um dos presentes a palestra da loja.
—O Senhor Cirino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é isso? Por aqui?
—É verdade, respondeu Cirino, e vou de passagem; também por pouco tempo: talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto enchia a salinha havia saído para a rua, de modo que o moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quase à anca do animal; afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.
Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto. Compreendeu o major o alcance da situação.
—Cada qual tem os seus negócios particulares, disse logo para começar; mas, se não há segredo que quer dizer esta sua volta?
—Já devia estar bem longe de acá, observou um sujeito. Há quase dois meses que parou aqui na cidade e...
Espere, interrompeu o vigário, não há tal dois meses. O doutor passou por esta rua há um mês e vinte dois dias, às oito horas da manhã.
—Pois bem, continuou o major, tinha tempo. de sobra para estar já por bandas de Miranda...
—Isso, se fosse escoteiro, replicou Cirino, reparem que levava cargas... e, demais, viajava curando...
—É verdade! confirmou o coletor (homem esguio, que trazia um chapéu muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar... falar...
—Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigário com ar rusguento.
—Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo em geral... Em geral. Eu não...
—Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este tempão todo?... nalguma fazenda?
Prometia ir longe o interrogatório.
—Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cirino meio perturbado, no...
—Não é tão perto assim, objetou o vigário. Uma vez...
—Ouçamos, senhor padre, atalhou o coletor denunciando rixa velha com o clérigo. O moço não disse que seja perto daqui...
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.