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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Sentou-se no chão, e suspendeu o cadáver para o atravessar sobre os joelhos. Um galho da árvore, que com sua folhagem havia obrigado a moça durante a noite, afastou-lhe o lencinho branco que lhe envolvia o pescoço, e indiscretamente descobriu aos olhos do consternado amante seus seios virgens.

Ao vê-los, soltou este nova exclamação de dor. A chama que Luísa para salvar Florinda do incêndio, transpusera a noite anterior, havia deixado uma só chaga no lugar onde a natureza tinha-a dotado com um cofre de graças e perfeições peregrinas.

— Queimada ! Oh ! Luisinha, que sofrimento não foi o teu ! Que dores não suportaste em silêncio, desgraçada criança ! E como fico eu sem ti, meu amor ? Ai de mim, Luisinha ! Ai de mim !

O ânimo varonil, que sempre se mostrara inteiro e imoto, agora agitado por comoções tão violentas, dobrou-se enfim e deu larga prova de fragilidade humana. Dos olhos do bandido irrompeu uma torrente de lágrimas. Soluços, como animal bravio, escaparam de seu peito e ecoaram pela imensidade ainda em grande parte adormecida. Havia quinze anos que esses olhos não choravam diante dos mais tristes e lastimosos espetáculos.

— Que noivado o meu ! É o noivado do assassino ! Oh ! meu Deus !

De repente do lado do rio soou um clarim.

A dor sucedeu o susto, e depois o terror no animo do desgraçado mancebo. Só, sem armas, arrependido de toda sua vida de crimes, que restava ao Cabeleira naquele doloroso transe ?

O clarim soou mais perto, e com as vozes deste instrumento chegou aos ouvidos do mancebo um retintim de espadas e facões que indicava, junto com as sobreditas vozes, a existência de um corpo militar por aquelas bandas. Andava de feito por ali um dos piquetes do regimento de Cristóvão de Holanda, o qual, depois de ter batido algumas matas suspeitas, se recolhia à vila, donde havia partido na noite imediata.

Cabeleira depôs o cadáver de Luísa sobre os ramos, e afastou-se para dentro do mato não sem novo sobressalto, à vista do risco em que se achava.

Depois de ter desaparecido, voltou novamente e suspendeu em seus braços o corpo com o intuito de conduzi-lo consigo para dentro da espessura. Mas quando ia a entrar aí com o triste resto do seu tesouro, um homem apareceu na extremidade da clareira. Era o Marcolino que, havendo-se encontrado com o piquete ao cair da tarde anterior relatara o que havia acontecido junto da vazante, e se oferecera para o guiar no rumo do fugitivo.

Este, vendo que a sua vida estava em perigo, e que a perda de um momento podia ser-lhe fatal, resignou-se a deixar o precioso despojo, e internou-se de uma vez no mato.

Com pouco uma companhia de soldados penetrou no pouso onde Marcolino já havia dado com o corpo de Luísa

— Cheguem, cheguem depressa. Dormiu aqui o assassino. Ali está a fogueira ardendo ainda, e aqui a sua própria companheira, que ele deixou morta. Ah ! malvado !

Os milicianos rodearam o cadáver de Luísa sobre cujo rosto não seria difícil descobrir ainda vestígios das lágrimas do desgraçado mancebo.

— Perverso! Perverso! — exclamaram alguns deles indignados do que viam, mas não sabiam.

— Não satisfeito de ter matado mulheres e meninos no fogo, veio tirar aqui a vida a sangue frio àquela que o quis acompanhar.

— Não percamos tempo — observou Marcolino. — Ele deve estar perto daqui. Vamos, minha gente, vamos descobrir o assassino enquanto ele não nos escapa.

É verdade. Alto frente. Toca a corneta. Tiririca.

— Não toques, que se o Cabeleira nos ouvisse, ninguém mais lhe punha o olho em cima, quanto mais a mão.

— Se não fosse esta corneta, já tínhamos pegado o cabra — observou Marcolino.

— Qual cabra nem meio cabra. Aquele que tem de pegar o Cabeleira está ainda por nascer.

E entraram na espessura.

CAPÍTULO XV

O Cabeleira desapareceu no mato como desaparece o peixe no seio da corrente caudal.

Os milicianos, bem que homens igualmente rústicos, e conhecedores das florestas, não tinham todavia o longo uso da espessura, uso que, ainda neste particular, tornava superior a eles o valoroso malfeitor.

Espalharam-se em diferentes direções, a esmo, sem plano, e por isso sem probabilidade de bom resultado.

O piquete não era numeroso, e vinha quase debandado quando encontrou o Marcolino que denunciou o ponto onde havia deixado o fugitivo.

Poucos deram crédito às palavras do matuto, e só por desencargo da consciência alguns se prestaram a dar a busca que ele propôs, e que, a seu parecer, não podia deixar de surtir o desejado efeito.

Gastaram quase o dia inteiro na diligência.

Por fim, dissuadidos de descobrirem o assassino, cada um tomou o caminho mais curto para sua casa, dando alguns ao diabo o Marcolino por tê-los feito andar para dentro e para fora do mato inutilmente, e acreditar em esperanças que não se realizam.

(continua...)

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