Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Deus me perdoe, se estou em erro não acompanhando nem o padre José Gonçalves, nem frei Manuel de Jesus, nem Silva Lisboa, no juízo que fizeram sobre aquela exaltadíssima donzela e na credulidade, a meu ver pueril, que os levou a encher de absurdos e de ridículos episódios a história que escreveram.
A verdade não pode estar nem no sarcasmo do incrédulo que zomba da viva flama de um santo entusiasmo, nem na cegueira de certas crenças que por absurdas se desfazem, ou por grosseiras se rejeitam ao primeiro intuito.
Não posso, não devo tratar deste assunto com ligeireza e tom brincalhão. Terei de falar-vos de um entusiasmo, de uma fé e de uma vocação que se acenderam na alma de uma mulher desde os seus anos de primeira infância. A criança é neste caso veneranda como um velho, e talvez que brilhe nela ainda mais puro um raio da luz divina, porque as crianças são anjos.
Na história da fundadora do convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro não me farei eco dos absurdos que li. Mas que razão terei para rejeitar ou caiar o que encontrei nela de extraordinário?
A mulher não raciocina fria e vigorosamente como o homem. Sente, porém, melhor, e imagina com mais ardor que o homem. Excedendo-o no sentimento, excede-o por isso mesmo sempre no amor; sobrepujando-o na imaginação, sobrepuja-o por isso mesmo sempre no entusiasmo. O segredo desta superioridade está provavelmente na enervação delicadíssima da mulher.
Dai a uma mulher uma sensibilidade excessiva, o que é fácil pela sua própria organização; levai o seu amor e o seu entusiasmo ao extremo, e vê-la-eis heroína ou inspirada. Heroína, afrontando os perigos e a morte com o sorriso nos lábios; inspirada, cercando-se de uma auréola sobre-humana, vendo e ouvindo o que não vos é dado ouvir nem ver. Passa-se realmente o que ela vê e ouve? Não podeis, como os filósofos, dizer que sim; mas quem vos autoriza a dizer que não? Apelais para a razão? Mas a razão humana é limitada, e tudo quanto Deus pode fazer por uma criatura nem vós podeis compreender, nem vos é lícito negar.
Há sem dúvida ilusões filhas do exaltamento da imaginação e do sentimento; mas no meio delas há também a grande verdade que acende o entusiasmo e o amor. Há o arrebatamento da alma em um santo fogo que é a inspiração. Há prodígios que o espírito humano observa e não explica. Há, enfim, mistérios cuja decifração pertence somente a Deus.
A impostura, o charlatanismo e a hipocrisia procuram às vezes arremedar a inspiração. A prudência convida-nos, portanto, a desconfiar do que nos parece extraordinário, e a crítica examina os fatos antes de aceitá-los. Mas, como observa Lamartine, a crítica lança-se por terra diante da sinceridade de uma criança.
Escutai, pois, a história um pouco extraordinária da piedosa fundadora do convento de Santa Teresa.
No ano de 1715, e aos 15 de outubro, exatamente no dia em que a Igreja celebra a festa daquela santa reformadora da ordem dos carmelitas, nasceu na cidade do Rio de Janeiro uma menina que na pia batismal recebeu o nome de Jacinta. Foram seus pais José Rodrigues Aires, natural do Porto, e Maria de Lemos Pereira, natural desta cidade de S. Sebastião.
Desde os mais tenros anos a menina se fez notável por um precoce desenvolvimento de inteligência, por uma fácil e grande percepção, por uma imaginação vivíssima, e naturalmente também por uma esquisita e excessiva sensibilidade. Diz-se que era pálida e bela, e tão nervosa que ainda muito cedo começou a experimentar cruéis sofrimentos que a medicina poderia bem atribuir à exagerada predominância daquele temperamento.
Jacinta, apenas tinha deixado o berço e principiado a compreender o que ouvia, foi logo sujeita a uma educação toda religiosa. Ainda falava mal e já repetia de cor as suaves orações da Igreja, adormecia à noite escutando lendas e histórias de santos, e de manhã acordava alegre para acompanhar seus pais a ouvir missa. Trazia ao pescoço uns bentinhos com a imagem de Nossa Senhora, que sua mãe lhe dera, dizendo-lhe que por eles ver-se-ia sempre livre de perigos e desgraças.
Entre as lendas que com interesse e prazer ouvia, é provável, ou pelo menos muito possível, que Jacinta tivesse também ouvido a história de Santa Teresa, a santa do dia do seu nascimento, sua advogada de predileção, e por quem chamava sempre que um temor a assaltava ou que uma dor vinha atormentá-la.
Assim, pois, a educação ligava-se com a organização dessa menina para acender-lhe o entusiasmo na alma e o amor no coração.
E o entusiasmo e o amor bem depressa se inflamaram.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.