Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Juliana via-se incessantemente abysmada em um diluvio de felicitações e de flores.

II.

Cem vezes naquella noite de festivo culto a bocca mentirosa da lisonja tinha pronunciado aos ouvidos da bella moça o nome — anjo.

Mas Juliana nem tinha as virtudes que emprestão na terra o nome de anjo á mulher, nem as condições para esperar na vida o gozo da felicidade, que pôde fazer do mundo um reflexo do Paraiso.

Ella era o que a educação que lhe havião dado a tinha feito.

Filha unica, foi objecto de uma idolatria para seus pais; desde criança, sua vontade e seus caprichos forão leis de amor no seio da familia ; desde criança soube que era formosa, mas não aprendeu que alguma cousa ha preferivel á belleza.

Seu pai deu-lhe mestres que abrilhantárão-lhe o espirito, e ensinárão-lhe bastante para que ella aos quinze annos se pudesse reputar mais instruida do que em geral o são as senhoras.

completárão-lhe a educação com os encantos das bellas-artes.

O pai de Juliana era um homem illustrado, mas discipulo da escola de Voltaire, e enthusiasta do patriarca de Ferney, não querendo comprehender que esse gigante demolidor misturou em suas doutrinas grandes verdades com funestos erros ; que em sua gloriosa guerra contra o fanatismo foi em arrojo fatal atacar também a pureza da religião ; que no seu facho de civilisador incendiario havia fogo do céo e fogo do inferno; o pai de Juliana enregelou o coração de sua filha com um horrivel septicismo que nelle plantou, e morrendo quando ella tocava o seu terceiro lustro de idade, escapou ao castigo de ver o fructo de seus principios no tremendo futuro que esperava Juliana; mas nem por isso deixou de ser punido; pois , que embora seu cadáver fosse molhado pelas

lagrimas da pobre orphã, sua alma não su-

bio ao céo nas azas puras da oração de sua filha.

Passado um anno de luto, Cândida levou Juliana ao seio ardente do mundo elegante.

As sociedades abrirão em par suas portas á nova e esplendida belleza que vinha encantal-a; os thuribulos da adulação queimarão incenso embriagador aos pés da donzella ; a sensualidade civilisada derramou no coração da menina o seu activissimo veneno misturado com o mel suave e deleitoso das mais odorosas flores.

E Juliana, moça engraçada e lindissima, foi o que a sua educação a tinha feito, caprichosa altiva, temeraria, vaidosa, acreditando inexperiente nos homens, incredula, sem fé em Deus, tudo esperando no mundo, nada esperando do céo.

III.

Entre os mancebos que mais ardentes e cubiçosos devoravão com olhos avidos a encantadora jovem, distinguia-se Fábio, tanto pelo seu enlevo, como pelo respeito affectuoso que lhe enfreiava a paixão.

Fábio era um moço pallido, de olhos bellos e penetrantes, ecuja fronte alta dava testemunho de uma intelligencia feliz.

Camarada da infancia de Juliana, começou a amal-a em menina, ama-a ainda mais em sua esplendida mocidade, e amal-a há toda a vida.

Não desconhece os defeitos da mulher que adora, não pôde porém dominar seu coração; ama-a, como também o marinheiro ama o oceano, apezar de conhecer-lhe a inconstancia, as tempestades e o perigo.

Anima-o aluz de alguma esperança?.... sim; mas luz tão fraca e duvidosa, como a flamma extrema e moribunda de uma lampada que prestes vai apagar-se.

Fábio é pobre ; conta porém enriquecer pelo trabalho, e então correrá aos pés de Juliana, e lhe offerecerá a posição faustosa que ella aspira, e que sem um esposo rico não conseguirá jamais, pois que a fortuna de sua mãi é apenas mediocre.

Dóe ao mancebo apaixonado a idéa de que é essa ancora de ouro a única a que se poude prender seu amor para não ser levado pela corrente do mais triste engano.

Dóe-lhe ; ama porém ainda e sempre, e zeloso como um infeliz, da duvidosa esperança que lhe sorri no futuro, Fábio estremece ao ver algum cavalheiro approximar-se cubiçoso da bella Juliana, e geme de afflicção escutando as palavras que o galanteio entorna no ouvido vaidoso da donzella, que as recebe ás vezes simulando uma indifferença que não desanima.

São onze horas da noite : o saráo está na sua hora de mais vivo fervor.

Um novo convidado entrou na sala: é Jorge de Almeida.

Ao vêl-o apparecer, Fábio empallideceu e acanhou-se ; Juliana corou e sorrio.

IV.

Jorge de Almeida era um jovem de 22 annos de idade, alto, bem feito e de physionomia insinuante e sympathica, apezar da ousadia do seu olhar magnetico e da expressão sensual de seus lábios eroticos. Tinha o rosto claro, já porém um pouco desbotado pala fadiga e pelos excessos de uma vida toda passada em ardentes prazeres e levada pelo caminho que ensinarão os falsos interpretes das doutrinas de Epicuro.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4950515253...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →