Por José de Alencar (1872)
Era o nosso corretor desses homens cujo estômago professa a maior independência em relação ao coração e à cabeça: imagem de uma república bem organizada, com perfeito equilíbrio dos poderes.
- Fairy!... Fairy! exclamava entretanto Mrs. Trowshy, estatelada diante daquela magnificência.
- Oh! Guimarães! gritou um dos elegantes da comitiva.
- Que é lá?
- Eras capaz de virar uma cambalhota daqui no Jardim?
- Abraçado contigo.
No seu entusiasmo travou a inglesa do braço do Benício, que estava engomando com a mão a calça amarrotada pelo burro.
- Look, Sir, how beautiful!
- É Botafogo, sim, senhora! respondeu o homem sem desconcertar-se.
Á parte, o visconde parecia enlevado ante a cena maravilhosa; tal concentração de espírito mostrava sua atitude contemplativa.
- Está admirando, Sr. Visconde? perguntou-lhe Guida.
- Estava parafusando uma coisa.
- Não se pode saber? insistiu a moça com malícia.
- O terreno que Deus desperdiçou para fazer mar!
Guida voltou-se com um sorriso para Ricardo que escutara o diálogo:
- É dos meus!
Chegaram à “Mesa” os copeiros com os petrechos do almoço, que formavam a carga de um burro. O Bastos e o Benício foram dos primeiros a avistar o farnel e deram as alvíssaras aos mais.
Dirigiram-se então os convidados ao bambuzal, onde os esperava um lauto almoço.
O visconde da Aljuba não perdeu seu tempo. Enquanto devorava o improvisado almoço, ia resmoendo os seus cálculos. Anexara-se à passeata, com surpresa de todos, unicamente para julgar por si da posição do Ricardo em relação a Guida.
Os rapazes, que não podiam nem remotamente perscrutar a intenção do refinado usuário, cuidaram que estava apaixonado por Mrs. Trowshy, e pretendia disputá-la ao Sr. Benício, o cavaleiro servente da inglesa.
O velho deixava-os rir à sua vontade, e ia lançando na memória, como em um borrador, as observações que depois contava tirar a limpo.
Assim não lhe escapou o afastamento que de repente, depois da disparada, havia entre Ricardo e a moça.
- Arrufos! dizia consigo o visconde polvilhando de pimenta-do-reino os camarões. Isto arde, mas abre o apetite! E ria-se por dentro da pachouchada.
Depois do almoço, cada um quis deixar nos bambus uma lembrança do passeio. Escreveram uns o nome e a data; outros a simples inicial; D. Guilhermina foi desse número, e Fábio cercou o dístico de um traço fingindo um coração espetado em um F.
Durante esse tempo o Sr. Benício, depois de ter fornecido à direita e à esquerda canivetes e tesouras para os dísticos, à sorrelfa tirava os arreios da baia e passava-os para o machinho da carga, sem que os copeiros, ocupados a devastar as ruínas do almoço, dessem pela barganha.
Ricardo gravou o nome da Luísa, sua irmã, talvez na esperança de pungir com aquela recordação a alma de Fábio; mas este nem se apercebia de sua presença ali, tão enlevado o tinham os olhos da mulher do Barros.
O visconde, armando-se de um garfo, marcou um bambu com um enorme cifrão; o que inspirou a Guida um enigma pitoresco. Com um grampo desenhou a moça na casca verde da taquara um cifrão dando braço a um xis rechonchudo, o que todos aplaudiram com risadas descobrindo a alusão aos requebros da inglesa com o usurário.
Às onze horas montaram a cavalo para a volta. Ricardo, a pretexto de arranjar os arreios do “Galgo”, deixou-se ficar, resolvido a separar-se da companhia, tomando pelo caminho de baixo.
XVIII
Quando supôs que o farrancho devia ir longe, Ricardo montou no “Galgo” e seguiu passo.
- Decididamente esta sociedade não me convém, e eu estou fazendo aqui uma triste figura: a figura de um estafermo num baile de máscaras, ou de um enfermo em dieta à mesa do banquete. Há certas loucuras e vícios da sociedade, em que o homem deve tornar-se cúmplice, sob pena de passar por grosseiro ou imbecil. A mim nem ao menos resta a consolação do dilema; na opinião desta gente já tenho direito incontestável à dupla qualificação. Imbecil, porque me falta o jeito para explorar as boas relações com um milionário; grosseiro, porque não aplaudo à esperteza de uns, ao descaro de outros, e finalmente aos caprichos de uma menina presunçosa e mal-educada.
Desatando indiferente estes pensamentos à brisa, com os frocos da fumaça de seu charuto, feriu-lhe o espírito uma recordação amarga:
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.